São já 103, os generais detidos. E ainda trinta governadores e mais de 50 altos quadros da administração turca, entre os cerca de nove mil funcionários que foram afastados dos cargos.

Em Ancara, a manhã foi marcada por mais um incidente. Um homem com uniforme militar, armado, foi detido pela polícia, após ter disparado junto ao tribunal onde estarão a ser interrogados 27 generais acusados de liderarem a tentativa de golpe militar.

No grupo dos 27, que segundo a imprensa turca terão sido ouvidos de manhã pela justiça, está Akin Ozturk, o general de quatro estrelas que chefiava a força aérea do país.

No total, mais de seis mil militares estão sob custódia policial. São acusados de participar na tentativa de golpe e de apoiar ou pertencer à rede de Fethullah Gülen, o imã muçulmano radicado nos Estados Unidos, de quem o governo turco pretende a extradição.

Falando na manhã de segunda-feira, em Ancara, o primeiro-ministro Benali Yildirim apresentou o seu balanço do golpe falhado: mais de 7500 detidos, cerca de 1500 feridos e 308 mortos, nos combates registados sexta-feira, incluindo 145 civis. Entre os que foram presos há também 755 magistrados e 100 agentes da polícia

Sem meias medidas, o primeiro-ministro assumiu estar em curso uma “limpeza” para afastar de cargos públicos todos os que o poder turco considera partidários da organização terrorista responsável. Ou seja, o Hizmet, ou “Serviço”, um movimento liberal islâmico criado pelo imã Gulen.

A presença de partidários do Hizmet nas esferas judiciais e militares da Turquia tem sido referenciada pelo poder turco. Há dois anos, o país foi abalado por casos de corrupção envolvendo a figura do presidente Erdogan, Começou aí a apontar o dedo ao exilado Gulen, com quem até então mantinha relações de apoio mútuo.

Pena de morte à vista?

O presidente Recep Erdogan e o governo turco ameaçaram restaurar a pena de morte. Segunda-feira de manhã, o primeiro-ministro Yildirim continuou a não descartar a ideia, mas deitou alguma água na fervura.

Falando ao país, lembrou que a reposição da pena de morte obrigará a uma alteração constitucional e que não deve ser tomada qualquer ação precipitada.

A hipótese da reposição da pena de morte na Turquia tem sido condenada, seja pelos partidos da oposição, seja pelos Estados Unidos e União Europeia.

Dizemos que a lei tem de ser protegida no país e não há justificação para quaisquer passos que afastem disso o país”, declarou a chefe da diplomacia da União Europeia, a italiana Federica Mogherini.

A posição europeia foi também secundada pelo chefe da diplomacia norte-americana, em Bruxelas, após uma reunião com os ministros dos Negócios Estrangeiros da UE.

Instamos o governo da Turquia a manter os mais altos padrões de respeito pelas instituições democráticas do país e pela lei”, sublinho o secretário norte-americano de Estado.

A eventual reposição da pena de morte, abolida em 2004, seria o reerguer de um obstáculo à desejada adesão da Turquia à União Europeia. A hipótese tem sido condenada, não só por vários países da União Europeia, mas também por organizações como a Amnistia Internacional e os principais partidos da oposição turca.

Braço de ferro com os EUA

Entre as ondas de choque da intentona militar da passada sexta-feira surge agora um mal-estar entre a Turquia e os Estados Unidos, porque Ancara quer a extradição de Gulen.

Os Estados Unidos são um parceiro estratégico. Mas digo-lhes que temos documentos que demonstram a existência de um golpe contra o nosso governo”, sublinhou o primeiro-ministro Benali Yildirim, admitindo que o diferendo pode mesmo “pôr em questão a amizade” com os norte-americanos.

Membro da NATO, a Turquia tem o segundo maior contingente de tropas da organização, a seguir aos Estados Unidos. Além disso, as facilidades militares concedidas aos norte-americanos permitem-lhes lançar ataques contra alvos na Síria e Iraque. É o caso da base aérea de Incirlik, cujo comandante, o general Bekir Ercan Van é um militares detidos por suposta responsabilidade na intentona.

Um golpe estranho e suspeito

Permitido, facilitado, previsto, no mínimo, estranho. É como muitos analistas começam a olhar para o fracassado golpe militar de sexta-feira, na Turquia.

Parece que algo foi preparado. As listas estão disponíveis, e isso sugere que estavam prontas para serem usadas em qualquer momento”. A reflexão parte do comissário europeu Johannes Hahn, responsável pelas negociações de adesão da Turquia à União Europeia.

A carregar na nota de estranheza face ao fracassado golpe está a revelação de um antigo oficial turco à agência de informação Reuters: dois caças F16 pilotados por revoltosos tiveram o avião do presidente debaixo de mira, quando regressava a Istambul na madrugada de sábado, e não dispararam.

Trancaram os radares no avião dele e em dois outros F16 que lhe faziam escolta. Porque não dispararam, é um mistério”, sustenta o ex-responsável militar.