A Rússia vai continuar a lançar ataques aéreos na Síria junto à fronteira com a Turquia, mesmo depois de um avião do Governo de Moscovo ter sido abatido pelas autoridades turcas, por alegadamente ter violado espaço aéreo deste país, informou esta quarta-feira o porta-voz do Kremlin.
 

“O ideal seria que os [jihadistas] não se aproximassem da fronteira com a Turquia, mas infelizmente tendem a fixar-se em territórios próximos dessa zona. As operações vão continuar, sem dúvida”, afirmou Dmitry Peskov.

O ministro da Defesa da Rússia, Sergei Shoigu, já tinha afirmado hoje que Moscovo vai, também, enviar um sistema antimísseis aéreos, o S-400, para a sua base aérea na Síria, uma clara resposta ao incidente de ontem.

Sergei Shoigu falava esta manhã numa conferência de imprensa, emitida pela televisão russa, ao lado de Vladimir Putin, que por sua vez confirmou as informações avançadas pelo embaixador da Rússia na França, à rádio Europe 1, de que o segundo piloto, que se ejetou da aeronave abatida, está “são e salvo”.
 
Como escreve a agência Reuters, que cita agências de notícias da Rússia, o piloto foi encontrado por homens do exército sírio, depois de uma operação de 12 horas, e levado para a base militar russa na província síria de Latakia. O outro piloto foi dado como morto.
 
Entretanto, o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, reafirmou esta manhã que não quer um agravamento das tensões com a Rússia, e rejeitou qualquer possibilidade de atacar o país depois do incidente.
 
Erdogan, que falava numa reunião da Organização para a Cooperação Islâmica, em Instambul, e depois numa reunião com o seu partido (AK), disse que pretende manter os canais de diálogo com a Rússia “abertos” e que a Turquia favorece a “paz, o diálogo e a diplomacia”. Porém, reafirmou que o país tem o direito de defender as suas fronteiras.
 

“Ninguém pode esperar que a Turquia fique quieta quanto a violações das suas fronteiras e dos seus direitos.”

 
O presidente turco acrescentou, ainda, que o seu país enviou um sinal claro à Rússia de que não pode atacar militares turcos, sob o pretexto de estar a lutar contra o Estado Islâmico. 
 

Ministro russo diz que ataque foi "ato planedo"


Por sua vez, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, já afirmou que a Rússia está a ponderar reconsiderar as suas relações com a Turquia, porém rejeita qualquer possibilidade de um conflito armado. O ministro considera que o incidente foi um "ato planeado", que vai ter impacto no encontro de Viena sobre a situação na Síria.

O ministro espera que o incidente com o avião russo não sirva de pretexto para fechar o espaço aéreo na Síria.

Lavrov já falou com o ministro dos Negócios Estrangeiros da Turquia por telefone e, segundo a Interfax, recusou os vários convites que lhe foram feitos para um encontro entre os dois. Por sua vez, fonte oficial da Turquia disse à Reuters que os dois ministros talvez se encontrem na próxima reunião da OSCE em Belgrado, na Sérvia, que decorre entre 3 e 4 de dezembro.

Ainda no rescaldo do incidente, esta manhã, o presidente russo lançou críticas aos líderes políticos turcos, que considerou responsáveis pela “islamização” do país.
 

“O problema não está na tragédia que vimos ontem. [A raiz] é muito mais funda. Nós vemos que os líderes turcos, ao longo de muitos anos, têm prosseguido uma política que suporta a islamização do seu país”, disse Putin, citado pela agência TASS.

 

Chanceler alemã pede calma

 
À semelhança do que já tinham feito outros líderes, a chanceler alemã, Angela Merkel, afirmou hoje no parlamento que é preciso fazer “tudo para evitar um agravamento da situação”.

Merkel, que já falou com o primeiro-ministro turco por telefone, disse que o incidente com o avião russo “agravou a situação na Síria”.