O ministro dos Negócios Estrangeiros da Turquia considerou esta segunda-feira em Lisboa que “não existem diferenças” entre o grupo Estado Islâmico (EI) e os rebeldes curdos do PKK e que ambos devem ser “eliminados”.

“Temos muitas razões para os combater, temos de proteger a ordem pública e não podemos tolerar atividades terroristas. Que país democrático pode tolerar atividades terroristas. Portugal pode? A Europa pode? Não. Por que necessito de uma desculpa para combater o terrorismo?”, considerou Mevlut Çavusoglu, em conferência de imprensa conjunta com o seu homólogo português, Rui Machete, no decurso da sua visita oficial de um dia a Lisboa.


Na sexta-feira, e na sequência de diversos incidentes armados que se seguiram ao mortífero atentado suicida de 20 de julho em Suruç (sul) atribuído por Ancara aos ‘jihadistas’ e que vitimou mais de 30 ativistas curdos, a Turquia desencadeou ataques contra posições do PKK no norte do Iraque, e ainda contra posições dos radicais islâmicos na Síria.

Esta nova escalada do conflito no Curdistão turco, iniciado em 1984 e que provocou dezenas de milhares de mortos – com diversas organizações internacionais a acusarem as duas partes de abusos dos direitos humanos –, arrisca-se a comprometer o frágil “processo de reconciliação”, anunciado em dezembro de 2012.

O ministro turco também se pronunciou sobre a situação política interna, na sequência das inconclusivas legislativas de 07 de junho, que ainda não permitiram a formação de um novo Governo.

Nesse escrutínio, e pela primeira vez, o Partido Democrático dos Povos (HDP), um partido secularista pró-curdo, ultrapassou a barreira obrigatória dos 10% de votos (garantiu 13%) e elegeu 80 deputados, um resultado decisivo para retirar a maioria absoluta que o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP, islamita-conservador) detinha desde 2002.

“O HDP está representado no parlamento. (…) Esperamos que o HDP se porte como um partido político. Que cortem os laços com as organizações terroristas do PKK”, assinalou Mevlut Çavusoglu.


No domingo, dirigentes do AKP e o direitista Partido de Ação Nacionalista (MHP) exigiram a ilegalização do HDP, que se define como defensor dos direitos da população curda da Turquia (pelo menos 12 milhões), mas também engloba amplos setores da esquerda turca, ecologistas, defensores dos direitos de diversas minorias, e mantém relações próximas com o partido Syriza, no poder na vizinha Grécia.

“Têm de tomar uma decisão, democracia ou terrorismo. Uma solução pacífica, ou conflito. O Governo turco é favorável à reconciliação, em manter o processo destinado a uma solução, foi por isso que o iniciámos e nunca desistimos do processo. Mas não significa que vamos tolerar ataques terroristas que atingem a ordem pública”, sublinhou o chefe da diplomacia turca.


Neste contexto, têm-se repetido as acusações de que Ancara pretende ocultar uma “agenda interna” no combate “sem distinção” que declarou ao grupo Estado Islâmico e ao PKK. Em causa estaria a eventualidade de eleições antecipadas, em que os islamitas-conservadores poderiam recuperar a maioria absoluta sem “a interferência” do HDP.

O responsável turco referiu-se ainda ao recente aumento das ameaças à segurança da Turquia para justificar as ações militares na norte da Síria e Iraque, que estão a atingir indiscriminadamente posições ‘jihadistas’ e dos rebeldes curdos, e confirmou para terça-feira uma reunião do Conselho da NATO em que vai informar os aliados “sobre o que a Turquia está a fazer face às ameaças à segurança”.

Na sua intervenção, o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete, sublinhou o “relacionamento forte” entre os dois países, reforçado pela cimeira conjunta que decorreu em março, e vaticinou que Portugal se pode tornar “um parceiro da Turquia em regiões como África e a América Latina, em especial no que respeita aos países lusófonos”, com Ancara a poder representar “uma plataforma estratégica para o relacionamento económico-empresarial em mercados do sudeste europeu, na Ásia central ou no Médio Oriente”.

O apoio de Portugal ao processo de adesão da Turquia à UE e a ameaça do “terrorismo globalizado” foram também destacados por Rui Machete.