«Se analisarmos as pessoas que estão visadas chegaremos à conclusão que os juízes que foram expulsos, nenhum deles teve qualquer interferência nos processos. A expulsão e a resolução são fundamentadas com os insucessos do Governo timorense nos processos relativos aos petróleos e aos pagamentos das taxas pelas empresas petrolíferas»

Nas resoluções que ditaram a expulsão dos magistrados, as autoridades timorenses alegam motivos de «força maior» e de «interesse nacional», referentes a 51 processos no tribunal no valor de 378 milhões de dólares de impostos e deduções ilícitas que as petrolíferas devem ao país, que o Estado timorense perdeu.

Mas Glória Alves assegura que «nenhuns destes juízes que foram expulsos tiveram qualquer interferência nos processos do petróleo. O procurador cabo-verdiano que foi também expulso teve uma interferência nos processos do petróleo apenas como parte acessória, o que quer dizer que a defesa do Estado foi entregue a advogados privados e, portanto, são esses a parte principal dos sucessos ou insucessos que o Governo terá, porque não há processo nenhum transitado em julgado»

A defesa do Estado timorense naqueles casos é assegurada pela sociedade de advogados norte-americana Arent Fox. A procuradora revela ainda:

«Os processos que estão em tribunal estão todos em fase de recurso, a decisão de primeira instância foi desfavorável ao Governo, mas estão todos em recurso. Neste momento, Timor não está condenado em nenhum dos processos do petróleo»

A conclusão que a magistrada retira é que a expulsão «não terá nada a ver com os processos do petróleo», mas sim uma decisão propositada do Governo:

«Se virmos o timing da resolução, a resolução sai numa sexta-feira com uma reunião do parlamento, uma reunião do Conselho de Ministros e publicada no mesmo dia. O processo da ministra das Finanças tinha agendado a primeira sessão na segunda-feira e, portanto, penso que isto tem de ser lido»

Para Glória Alves, é preciso também analisar outro dado, que são os muitos processos que existem em tribunal contra elementos do Governo e altos funcionários.

O julgamento da ministra das Finanças de Timor-Leste, Emília Pires, por alegada participação económica em negócio foi adiado sine die a 27 de outubro passasdo, porque o parlamento timorense ainda não levantou a imunidade à ministra e porque O Tribunal Distrital de Dili não teve ainda acesso ao processo, que está no Tribunal de Recurso, depois de a governante ter invocado nulidades na acusação. A procuradora portuguesa não tem dúvidas:

«Para mim, esta expulsão tem apenas que ver com a tentativa do Governo de impedir o normal funcionamento dos tribunais em relação aos processos criminais»

Na mesma entrevista, a magistrada adiantou, ainda, que os magistrados internacionais tiveram grandes «manifestações de apreço e de obrigado» por parte dos colegas timorenses. «Não sou política, não vim para aqui fazer política, vim para aqui exercer as minhas funções com dignidade e com respeito pela lei e pela Constituição e fi-lo e os meus colegas timorenses sabem bem e disseram-no em público».

Lamentando que se passou, referiu que «a nossa dignidade como magistrados foi afetada e só havia uma coisa a fazer, mandarem-nos para Portugal». Entretanto, todos os juízes portugueses já deixaram o país.

Também esta sexta-feira, quatro dias depois do sucedido, o Presidente de Timor-Leste quebrou o silêncio, para reconhecer que a decisão causou «agitação e sobressalto», mas continuando a defender que «edificar e fortalecer o Estado de Direito» é um desafio que Timor escolheu.

A ministra portuguesa da Justiça defendeu na quinta-feira que  «não foi respeitado o princípio da separação de poderes» no caso da expulsão dos magistrados. Paula Teixeira da Cruz confirmou o que já tinha sido dito pelo primeiro-ministro e pelo ministério dos Negócios Estrangeiros: que a cooperação judiciária com o país está suspensa para reavaliação. Passos Coelho chegou mesmo a dizer que  «muita água vai ter de correr» para que os dois países possam voltar a cooperar nesta matéria.