Setembro de 1991. Bill Clinton iniciava mais um dia na sua campanha para a reeleição como Presidente dos Estados Unidos. Mais uma sala de hotel, mais um comício. Era uma sala no hotel Westin Crown Centre. Mas naquele dia estava alguém presente disposto a doar-lhe um quarto de milhão de dólares (220.000 euros). Clinton voltou-se para o seu mais generoso convidado e liderou a restante audiência numa homenagem a Farhad Azima. “Parabéns a você, nesta data querida...”


Azima, um magnata da aviação privada, nascido no Irão, mas com cidadania norte-americana, há muito que se havia estabelecido como um dos principais financiadores da política americana, distribuindo somas avultadas indiscriminadamente por Democratas e por Republicanos.


Durante a presidência de Clinton, Azima visitou a Casa Branca uma dezena de vezes, tomando café com o Presidente, e apenas com ele, quase sempre. Sete anos passados, enquanto Hillary Clinton conduzia a sua campanha para o Senado, em dezembro de 1999, Azima foi o anfitrião de um jantar que juntou Hillary Clinton e mais de quarenta outras personalidades. O jantar custou 2.500 dólares (2.200 euros) por pessoa.


O interesse de Azima em atividades de angariação de fundos para fins políticos é uma mudança um tanto bizarra na carreira de um homem que foi implicado pela imprensa num dos maiores escândalos políticos dos Estados Unidos: o caso Irão-Contras, que estoirou durante a administração Reagan.


Em meados dos anos 80, alguns dos mais destacados funcionários de Ronald Reagan concordaram, secretamente, em vender armas ao Irão, na tentativa de conseguirem a libertação de sete norte-americanos sequestrados no Líbano por um grupo terrorista pró-iraniano. Além da libertação dos reféns, os homens de Regan esperavam, com os lucros dessas vendas, financiar os rebeldes de extrema-direita na Nicarágua, conhecidos como Contras. 


Em 1985, segundo noticiou o The New York Times, um dos aviões de carga da transportadora de Azima, um Boeing 707, transportou até Teerão 23 toneladas de equipamento militar, mas o empresário sempre afirmou desconhecer o que é que o avião transportava e até que esse voo se tinha efetuado. “Não tive nada a ver com o caso Irão-Contra”, disse Azima ao consórcio de jornalistas (ICIJ). “Fui alvo de investigações por parte de todas as autoridades possíveis nos Estados Unidos e a decisão foi unânime: não há nada aqui de criminoso. Foi uma espécie de caça ao ganso selvagem e as autoridades foram na cantiga”, completou Azima.


Mas os documentos obtidos pelo consórcio traçam um perfil um pouco menos cândido de um dos mais excêntricos financiadores da política norte-americana ao longo das últimas décadas. 


Os registos também revelam acordos feitos em paraísos fiscais de outra figura ligada ao escândalo Irão-Contra, o multimilionário saudita Adnan Khashoggi.


Os documentos agora revelados levantam o véu à trama que explica como é que tanto traficantes de armas ligados à CIA como prestadores de serviços e fornecedores desta mesma agência criaram empresas para ganho pessoal. Mais: os documentos ajudam também a esclarecer os esquemas utilizados por centenas de espiões e funcionários da CIA que utilizaram companhias offshore, durante e após os anos de serviço na agência.


Uma pessoa não pode exatamente andar por aí a dizer que é espião”, disse Loch K. Johnson, professor na Universidade da Geórgia, para explicar os atrativos oferecidos pelos investimentos offshore. Johnson, um ex conselheiro do Senado norte-americano em assuntos de segurança e espionagem, passou as ultimas décadas a estudar as companhias “oficiais” ligadas à CIA.


Os documentos a que o consórcio de jornalistas teve acesso revelam que um dos clientes da sociedade de advogados Mossack Fonseca é o primeiro chefe das secretas sauditas que foi descrito pelo Senado norte-americano como o “principal elo de ligação” norte-americano “com todo o Médio Oriente, desde meados dos anos 60 até 1979”, o xeque Kamal Adham.

Este responsável controlou várias empresas offshore, que estiveram por sua vez envolvidas num escândalo financeiro nos Estados Unidos. Foram também encontradas ligações das empresas do saudita ao ex-chefe da espionagem aérea da Colômbia Ricardo Rubianogroot, que era acionista de uma empresa de logística aérea, e Emanuel Ndahiro, um médico tornado espião ao serviço do Presidente do Ruanda, Paul Kagame.


Adham morreu em 1999 e Ndahiro não respondeu aos nossos pedidos de esclarecimento. Rubianogroot, contudo, confirmou ao Consejo de Redacción, uma associação de jornalismo de investigação colombiana e parceira do ICIJ neste projeto, que tinha de facto detido uma pequena parte da West Tech Panama, criada por uma companhia americana do mesmo ramo da aeronáutica. A empresa está agora em liquidação.

 
“Fizemos diligentes investigações a todos os novos e potenciais clientes que muitas vezes excedem o que nos é exigido por lei”, respondeu a Mossack Fonseca ao pedido de esclarecimento enviado pelo ICIJ. “Muitos dos nossos clientes chegam-nos através de sociedades de advogados com uma excelente reputação, ou através de instituições financeiras com antecedentes igualmente sólidos. Se um novo cliente não nos quiser fornecer toda a documentação necessária indicando quem é, e, quando aplicável, de onde provêm os seus rendimentos, nós não aceitamos trabalhar com esse cliente ou empresa”.


“Eu até poderia sugerir um nome tipo ‘Seguradora Mundial, Limitada’ ou ‘Exportações Universais’, porque foram dois nomes utilizados nos primeiros livros do James Bond, mas não sei se me conseguira safar com isso”, escreveu um empresário à Mossack Fonseca em 2010, em nome de outro potencial cliente que queria criar uma empresa fictícia nas Ilhas Virgens.  

Os documentos demonstram que a Mossack aceitou nomes de companhias como Goldfinger, SkyFall, GoldenEye, Moonraker, Spectre, Blofeld, tudo nomes de filmes e de vilões dos romances policiais de Fleming, e recebeu até um pedido para criar uma empresa firma com o nome Octopussy. Há registos de correspondência trocada com um homem que propõe como identificação o nome Austin Powers (personagem da famosa comédia de espionagem com o mesmo nome), alegando ser o seu nome verdadeiro, e outro chamado Jack Bauer (o nome do ator da série “24H”), que foi de facto adicionado à lista de clientes da Mossack porque o funcionário verificou a sua identidade “depois de se ter ido encontrar com ele num bar”.

Mas a ligação da sociedade de advogados Mossack Fonseca ao mundo da espionagem ultrapassa em muito a ficção.

 

Homens nas suas máquinas voadoras

 
Documentos secretos mostram que Farhad Azima criou a sua primeira companhia offshore, a ALG (Asia e Pacífico) Limitada, através da Mossack Fonseca, nas Ilhas Virgens Britânicas, no ano 2000. A ALG era por sua vez um ramo da Aviation Leasing Group, uma empresa aeronáutica privada sediada nos Estados Unidos com uma frota de mais de 60 aviões.


Alegadamente, só em 2013 a Mossack descobriu os artigos na imprensa americana que detalhavam as ligações de Azima à CIA , quando decidiu fazer uma investigação de rotina aos acionistas de algumas novas empresas. 


De acordo com informações encontradas nos ficheiros partilhados pelos funcionários da Mossack Fonseca, Azima “fornecia apoio logístico na área da aeronáutica” a uma empresa detida por antigos agentes da CIA que estavam referenciados por terem enviado armas para a Líbia. Outro artigo cita um funcionário do FBI confirmando ter sido avisado pela CIA que em Azima “não se podia tocar”. 


Pode ver-se nos registos que a Mossack Fonseca pediu aos representantes da Azima que confirmassem a sua identidade,mas nunca recebeu uma resposta, tendo Azima continuado como cliente da sociedade, segundo provam os mesmos registos.


 
E as surpresas internas iam-se sucedendo

 
Em 2014, um ano depois de descobrir na internet relatórios que ligavam Azima à CIA, Hosshang Hosseinpour foi citado em documentos do Tesouro norte-americano como um agente facilitador na movimentação de milhões de dólares para empresas sediadas no Irão, na altura sob embargo económico dos Estados Unidos. 


Os ficheiros demonstram que Azima e Hosseinpour aparecem mencionados em documentos de uma empresa que estava a planear construir na região autónoma da Geórgia, em 2011, o mesmo ano em que os funcionários do Tesouro norte-americano descobriram que Hosseinpour, co-proprietário da companhia aérea privada FlyGeorgia e duas outras, as tinha utilizado para transferir dinheiro para o Irão. Os Estados Unidos impuseram sanções ao empresário três anos mais tarde.


Não foi possível obter um comentário de Hosseinpour, mas em 2013, antes de as sanções que o visavam terem entrado em vigor, disse ao diário “Wall Street Journal” não ter qualquer ligação com o Irão e “não ter nada a ver com evasão às sanções”.


Outra ligação questionável da Mossack Fonseca à CIA dá pelo nome de Loftur Johannesson, atualmente uma figura grisalha de 62 anos, natural de Reiquiavique, também conhecido como “O islandês”, com conhecidas ligações à CIA nos anos 70 e 80. O seu trabalho para a agência consistia em fazer chegar armamento a guerrilhas anti-comunistas no Afeganistão. Com o que ganhava, “O islandês” adquiriu alegadamente uma casa em Barbados e uma vinha em França. O próprio Johannesson volta a aparecer nos ficheiros da Mossack em setembro de 2002, muito depois de se ter reformado. 


Estava, desta vez, envolvido em pelo menos quatro empresas com sede nas Ilhas Virgens Britânicas e no Panamá, que por sua vez adquiririam imóveis em locais com preços absolutamente proibitivos, como, por exemplo, na zona da Catedral de Westminster, em Londres, ou nos Barbados, mesmo em cima da praia. Casas equivalentes às adquiridas pelas empresas controladas por Johannesson estão neste momento no mercado por valores que rondam os 35 milhões de dólares (30 milhões de euros).
Bem recentemente, em janeiro de 2015, Johannesson continuava a pagar à Mossack Fonseca milhões de dólares pelos seus serviços. “O senhor Johannesson é um empresário na área da aviação e rejeita por completo as acusações que lhe são imputadas de algum dia ter trabalhado para qualquer agência de espionagem”, disse um porta-voz de Johannesson ao ICIJ.
 

Agente Rocco e o 008: licença para criar empresas
 

As ligações da Mossack com o caso Irão-Contras ainda não tinham chegado ao fim. Adnan Khashoggi é o nome que se segue. O multimilionário saudita, descrito muitas vezes como o homem mais extravagante do mundo a gastar o seu dinheiro, negociou vendas de armas à Arábia Saudita, nos anos 70, por milhares de milhões de dólares, e assumiu “um papel central para o Governo norte-americano” no caso das vendas de armas da CIA ao Irão, segundo um relatório de 1992 do Senado norte-americano de que John Kerry - então senador democrata do Massachusetts e hoje Secretário de Estado - é coautor.


Khashoggi aparece nos ficheiros da Mossack Fonseca desde 1978, quando se tornou presidente da empresa sediada no Panamá ISIS Overseas S.A.. A maioria dos negócios que Khashoggi teve com a Mossack Fonseca passou-se entre 1980 e 2000, através não só desta mas de pelo menos outras quatro empresas, cuja finalidade não aparece especificada nos ficheiros da Mossack. Contudo, duas delas, a Tropicterrain S.A. e a Beachview Inc, estiveram envolvidas em processos de hipotecas em Espanha e nas Canárias. 


Não há qualquer prova que de a Mossack tenha investigado o passado de Khashoggi, ainda que tenha processado pagamentos a partir da Adnan Khashoggi Group no mesmo ano em que o milionário saudita foi denunciado nos meios de comunicação social de todo o mundo como cúmplice de Ferdinand Marcos, ex-Presidente das Filipinas, na colocação de milhões de dólares na suíça. Khashoggi foi entretanto ilibado e os ficheiros da Mossack mostram que foi retirado da sua lista de clientes em 2013.


Se há uma coisa da qual não podemos acusar a empresa de advogados baseada no Panamá é de, durante a Guerra Fria, discriminar os seus clientes segundo o seu alinhamento político.


Outro dos nomes sonantes do livro de clientes é Sokratis Kokkalis, um multimilionário grego, de 76 anos, outrora acusado de pertencer à Stasi, a polícia política da antiga Alemanha de Leste, sob o pseudónimo de “agente Rocco”. Uma investigação feita no início dos anos 70 por uma comissão do Parlamento alemão concluiu que, durante o tempo que viveu na Alemanha e na Rússia, Kokkalis forneceria regularmente informação e contactos à secreta alemã. Até 2010, Kokkalis foi dono do clube de futebol Olympiacos, sendo atualmente o dono da maior empresa grega de telecomunicações.


A Mossack Fonseca descobriu as ligações do milionário grego  ao mundo da espionagem em fevereiro de 2015, depois de mais uma investigação de rotina a uma das suas empresas, a Upton International. “Kokkalis foi acusado pelos serviços secretos leste alemães de espionagem, fraude, e lavagem de dinheiro no início dos anos sessenta, mas ilibado de todas as acusações”, escreveu um dos funcionários da Mossack Fonseca aos seus colegas depois de ter feito uma  uma pesquisa na internet. Os documentos a que o ICIJ teve acesso revelam que o agente usado por Kokkalis não respondeu aos pedidos da empresa para que fosse fornecida informação mais detalhada sobre Kokkalis e a sua empresa, incluindo o ramo de atividade em que iria operar.


Adnan Khashoggi não respondeu aos nossos pedidos de esclarecimento e Kokkalis, que também não respondeu às perguntas enviadas, tinha já negado todas as acusações contra ele, dizendo haver “personalidades políticas e membros da comunicação social” empenhados em mover-lhe “uma guerra”.  


Em 2005, os funcionários da Mossack Fonseca aperceberam-se, um pouco alarmados, que havia no seu livro de clientes um tal Francisco P. Sanchéz, que poderia muito bem ser Francisco Paesa Sánchez, um infame agente secreto espanhol. 


“A história era francamente...assustadora”, escreveu a pessoa que fez a investigação e que primeiro se apercebeu do passado de Sanchéz. A Mossack Fonseca tinha aceitado representar sete empresas das quais Sanchéz era diretor. Nascido em Madrid antes do começo da Segunda Guerra Mundial, Paesa conseguiu uma pequena fortuna perseguindo separatistas, antes de fugir de Espanha com 109 milhões de dólares (95 milhões de euros). Em 1998, o espanhol encenou a sua própria morte, tendo a família um certificado de óbito onde se lia como causa de morte um ataque cardíaco...ocorrido na Tailândia.

 
Mas em 2004 foi encontrado no Luxemburgo, tendo explicado mais tarde que a questão da sua morte fora “um mal entendido”. Em dezembro de 2005, uma revista espanhola publicou um artigo, intitulado “A teia de negócios de Paesa”, no qual eram enumerados bens seus, como hotéis, casinos e um campo de golfe em Marrocos. Sem mencionar a Mossack Fonseca, o artigo listava também as sete empresas aceites pela sociedade de advogados, todas sediadas nas Ilhas Virgens.  Em outubro de 2005, a Mossack decidiu desligar-se de todas as empresas com ligação a Sanchéz. “Estamos preocupados com o impacto que um escândalo poderá ter na reputação da Mossack”, escreveu a sociedade a um dos seus administradores para explicar a decisão de cortar laços com Sanchéz.


“Acreditamos no princípio de que, se um cliente não é sincero connosco sobre todos e quaisquer factos que possam ser relevantes para a sua atividade financeira, principalmente se se relacionarem com o seu passado ou com a sua verdadeira identidade, isso é razão suficiente para por um ponto final na relação”, escreveu um dos funcionários da Mossack. Também não foi possível falar com Sanchéz para obter um esclarecimento desta questão.  
 

Dois Nomes, Nove dedos 
 

Mais uma pesquisa rápida pela internet, mais uma descoberta. Um dos mais antigos clientes da Mossack Fonseca, Claus Mollner, que estava com ela há quase trinta anos, afinal não existia. Os funcionários da Mossack encontraram apenas uma pequena árvore genealógica, uma resenha académica mas nenhum perfil em nenhuma rede social, nem no Facebook. Foi descoberto, sim, um artigo, da Universidade do estado Americano de Delaware, onde se lia que “Claus Mollner (o nome que Werner Mauss sempre tinha usado para se identificar) é também conhecido por Agente 008, ou “O momem dos nove dedos”, por ter perdido a ponta do seu dedo indicador.


Mollner – ou Mauss – autointitulava-se “o primeiro espião alemão”. Está atualmente reformado, mas na sua página pessoal pode ler-se que já “esmagou mais de uma centena de organizações criminosas”. As autoridades colombianas prenderam Mauss em 1996, por ele ter alegadamente conspirado com as guerrilhas na altura ativas no país para o rapto de uma mulher, ficando depois com parte do dinheiro do resgate. Mauss diz que os homens que raptaram a mulher não eram rebeldes e que ele nunca recebeu qualquer dinheiro do resgate, acrescentando ainda que todas as suas ações tinham sido conduzidas segundo instruções do Governo alemão. 


Ainda que o verdadeiro nome de Mauss nunca apareça mencionado dos ficheiros da Mossack Fonseca, há centenas de documentos onde a sua rede de empresas aparece detalhada. Pelo menos duas delas são proprietárias de imóveis na Alemanha. Mauss não tinha, a título pessoal, qualquer empresa offshore, disse o seu advogado ao ICIJ. Segundo a mesma fonte, todas as companhias ligadas a Mauss  “serviam apenas para assegurar os interesses financeiros da família Mauss”.


O mesmo advogado confirmou que algumas das empresas que aparecem nos ficheiros da Mossack foram utilizadas para financiar “operações humanitárias” em situações, por exemplo, de retenção de reféns. “Alguns fundos foram utilizados na construção de hospitais, compra de material cirúrgico, grandes quantidades de antibióticos, entre outras coisas, para conseguirmos assim evitar a extorsão das pessoas”.


Nos documentos pode ler-se que, em março de 2015, um funcionário da sociedade de advogados clicou nos resultados do motor de busca Google que ligavam Mollner a Mauss, mas não há provas de que a Mossack Fonseca tenha, em alguma altura, descoberto a sua verdadeira identidade. As empresas de Mauss continuaram dentro do universo da sociedade de advogados até 2015.