Os modelos para a previsão do aquecimento global usados pelo Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (agência da ONU) podem estar a subestimar o aumento médio de temperatura no futuro, sugere um artigo publicado hoje na revista científica Nature.

Segundo Patrick Brown e Ken Caldeira, que integram o Instituto Carnegie para as Ciências, em Washington, Estados Unidos, os modelos que projetam o aumento mais acentuado da temperatura para este século são os que melhor refletem a observação do atual clima do planeta.

"Existem dezenas de modelos e todos eles projetam diferentes níveis de aumento do aquecimento global, face às concentrações de gases com efeito de estufa, sobretudo porque não há um consenso em como modelar melhor alguns aspetos chave do sistema climático", refere Patrick Brown.

Num cenário normal, pode esperar-se que a temperatura global aumente entre 3,2 e 5,9 graus celsius acima dos níveis pré-industriais até ao final do século, uma diferença de um grau ou dois relativamente às habituais projeções, que apresentam aumentos menos severos.

Os modelos para a simulação do clima são usados para prever a subida da temperatura que é expectável face a um aumento da concentração atmosférica de dióxido de carbono e de outros gases com efeito de estufa.

"Os nossos resultados sugerem que não faz sentido descartar as projeções mais severas de aquecimento global devido ao facto de os modelos climatéricos serem imperfeitos na simulação do clima atual", acrescenta Patrick Brown.

Os investigadores focaram-se em comparar modelos e observações, no espaço e de acordo com as estações, dos padrões do fluxo de energia da terra para o espaço.

Concluíram que os modelos que melhor simulam o passado recente destas trocas de energia entre o planeta e a sua envolvência tendem a projetar aumentos do aquecimento, no futuro, maiores do que a média.

A incerteza relativa ao alcance do aquecimento no futuro deve-se, sobretudo, às diferenças dos variados modelos em simular alterações em nuvens com aquecimento global.

Alguns modelos sugerem que o efeito de arrefecimento causado pelas nuvens que refletem a energia do sol em direção ao espaço poderia aumentar no futuro, enquanto que outros modelos sugerem que este efeito pode reduzir-se.

"Os modelos que são mais capazes de recriar as condições atuais são aqueles que apontam para uma redução do efeito de arrefecimento das nuvens no futuro e, logo, aqueles que preveem aumentos mais elevados do aquecimento global", explicou o investigador.

O estudo de Brown e Caldeira indica que, se as emissões se mantiverem no cenário atual, há 93% de hipóteses de que o aquecimento global previsto ultrapasse os quatro graus Celsius até ao final do século, enquanto estudos anteriores apontavam apenas para 62% das hipóteses.

O acordo de Paris sobre redução de emissões de gases com efeito de estufa, assinado em 2015 por 193 países, estabelece como objetivo fundamental a contenção do aumento global da temperatura a um máximo de dois graus celsius, e preferivelmente 1,5 graus, acima dos valores médios da era pré-industrial.

A generalidade dos estudos sobre alterações climáticas coincide na previsão de que um aumento da temperatura global superior a dois graus terá consequências graves e irreversíveis no clima mundial.