O presidente do Parlamento Europeu, Antonio Tajani, instou, esta terça-feira, o fundador e administrador executivo do Facebook, Mark Zuckerberg, a prestar contas aos eurodeputados sobre o uso de dados de cidadãos europeus na sequência do escândalo da Cambridge Analytica.

Convidamos Mark Zuckerberg para vir ao Parlamento Europeu porque o Facebook precisa de clarificar, diante dos representantes de 500 milhões de europeus, que os dados pessoais não são usados para manipular a democracia", escreveu Tajani no Twitter.

O líder da Eurocâmara já tinha anunciado na segunda-feira a sua intenção de pedir responsabilidades.

As alegações de uso indevido de dados de utilizadores do Facebook é uma inaceitável violação dos direitos de privacidade dos cidadãos", salientou Tajani na segunda-feira.

A notícia da posição do Parlamento Europeu surge poucas horas depois de uma comissão inquérito do Parlamento britânico ter convocado o fundador e presidente do Facebook, Mark Zuckeberg, para esclarecer a alegada utilização ilícita de dados pessoais de utilizadores da rede social por parte de uma consultora para fins políticos.

É altura de ouvir um alto executivo do Facebook, com autoridade suficiente para explicar esta enorme falha”, disse Damien Collins, o deputado que preside a comissão parlamentar de inquérito, na convocatória enviada a Zuckerberg.

O mesmo deputado diz que “a comissão perguntou insistentemente ao Facebook como as empresas adquirem e retêm informação dos utilizadores e, em particular, se utilizam os dados das pessoas sem o seu consentimento”. Damien Collins considera que "as respostas dos representantes" do Facebook a essas perguntas "subestimaram consistentemente este risco e foram enganosas".

O escândalo

Uma investigação jornalística divulgada este fim de semana por jornais como o The New York Times e o The Guardian concluiu que a Cambridge Analytica, uma empresa de consultoria com sede no Reino Unido, utilizou os dados de mais de 50 milhões de utilizadores do Facebook para criar um programa para prever e influenciar os votos dos eleitores. Entre os clientes da Cambridge Analytica estaria o então candidato à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump.

Os dados terão sido colhidos através de uma aplicação chamada thisisyourdigitallife (esta é sua vida digital, em português). Esta aplicação terá pago a centenas de milhares de utilizadores pequenas quantias para que fizessem um teste de personalidade e concordassem em ceder os seus dados para um estudo académico. Como a aplicação foi desenvolvida foi desenvolvido por Aleksandr Kogan, um investigador da Universidade de Cambridge, ninguém duvidou das boas intenções da iniciativa. Acontece que, além do nome, a universidade não tem quaisquer ligações com a Cambridge Analytica.

Além dos dados dos utilizadores visados, a aplicação também terá ido buscar informações dos amigos desses utilizadores, sem autorização. A prática contrariava as próprias indicações da política do Facebook vigentes na altura para a cedência de dados, que permitia a terceiros a coleta de dados de amigos, mas apenas para melhorar a experiência do próprio utilizador na aplicação e proibia que os dados fossem vendidos ou usados para propaganda.

De acordo com a imprensa do último fim de semana, cerca de 270 mil pessoas terão usado a aplicação e respondido ao questionário, mas, juntando os amigos e os amigos dos amigos, o esquema afetou cerca de 50 milhões de utilizadores.

As repercussões do escândalo

O escândalo fez com que o Facebook sofresse uma queda abrupta em bolsa em muito poucas horas. Em apenas uma sessão, a empresa de Mark Zuckerberg perdeu cerca de 37 mil milhões de euros.

Esta segunda-feira, até ao fecho do Nasdaq, as ações do Facebook tinham caído 6,7%. É a maior queda percentual do valor das ações da empresa, em apenas um dia, nos últimos quatro anos.

E o Facebook não foi o único a sofrer com o escândalo. Teve reflexos também em outras das principais empresas do ramo. A empresa que controla o Google caiu cerca de 3% e empresas como a Amazon, a Netflix e a Apple registaram quedas até 1,5%.

Os deputados britânicos não foram os únicos a pedir explicações a Zuckerberg. A procuradora-geral do estado de Massachusetts, Maura Healey, anunciou que já abriu uma investigação.

Políticos, prostitutas e subornos

O fim de semana foi absolutamente negro para a Cambridge Analytica. Uma reportagem do Channel 4 emitida no domingo mostrou diretores da empresa a explicarem a um jornalista, que se fazia passar por um potencial cliente, como desacreditar os rivais políticos, envolvendo-os com prostitutas ou subornos.

O jornalista do canal britânico disse trabalhar para um cliente rico, que desejava eleger um político no Sri Lanka. Alexander Nix, diretor executivo da Cambridge Analytica, sugeriu práticas como “enviar algumas miúdas para casa do candidato” adversário. E pormenorizou: “miúdas ucranianas são muito bonitas e funcionariam bem”.

Só estou a dar exemplos do que pode ser feito e do que já foi feito antes”, resumiu Nix ao jornalista disfarçado.

A Cambridge Analytica já veio a terreiro defender-se e dizer que a reportagem "interpretou de forma errada" a conversa.