Podia ser argumento de um filme de espionagem ou guião de mais um episódio da série televisiva “Segurança Nacional”. Mas não, é a vida real. A Agência Central de Inteligência (CIA) usa jogos de tabuleiro e cartas para treinar analistas, prepará-los em operações do dia-a-dia, bem como desenvolver competências de estratégia, cooperação ou recolha de informação.

A revelação foi feita, domingo passado, na South by Southwest, uma feira de tecnologia sediada em Austin, no estado norte-americano do Texas. Num painel sobre jogos, estava um analista sénior da CIA, David Clopper. E a ideia partiu mesmo dele, algures em 2008.

Um superior convocou-o para que desenvolvesse um novo programa de treinos. Aquilo que já existia era “incrivelmente aborrecido”, confessou Clopper, citado pelo site de notícias tecnológicas Ars Technica. Sendo um jogador compulsivo e, tendo em conta os vários anos de agência, sugeriu começar algo do zero. Com jogos.

Sob esta premissa, nasceu “Collection”, o primeiro jogo de Clopper para a CIA, onde os participantes têm de recolher informações e conseguir resolver crises internacionais. Para dificultar, claro, o tempo é limitado. Repartidos por equipas que podem ir até sete elementos, cada partida tem de contar obrigatoriamente com três jogadores, que desempenham cargos existentes na agência: um analista político, um analista económico e um analista militar.

Além da corrida contra o relógio, cada participante tem apenas duas jogadas por ronda, seja a movimentar o analista de território em território, a desenvolver novos contactos no local ou a tentar obter mais informações.

“Este jogo serve para valorizar a cooperação (...) e a ensinar a importância de trabalhar em conjunto”, referiu David Clopper

“Collection” seria atualizado para uma versão baseada nos jogos de cartas do “Pokémon” e da “Magic: The Gathering”. Além disso, Clopper está a desenvolver algo para preparar os agentes nas questões burocráticas. Planeia criar um simulador em que estes são confrontados com cortes orçamentais do Congresso norte-americano ou recebem ordens do Departamento de Defesa.

No painel de oradores, encontrava-se ainda Volko Ruhnke, que colabora com a CIA na formação de analistas. É responsável por um jogo – atualmente à venda – que simula o conflito no Afeganistão e no qual os jogadores têm de resolver problemas políticos, económicos e militares.

Ruhnke ajudou ainda a criar outro jogo de tabuleiro intitulado “A caça por El Chapo”, baseado na detenção do infame barão da droga mexicano. Serve para “treinar analistas que possam trabalhar com as autoridades e outros parceiros pelo mundo para encontrar um vilão bem armado, defendido e protegido”, revelou à Ars Technica. A particularidade é que uma das equipas ajuda o mau da fita, para os analistas perceberem como funciona a mente dos inimigos que terão de perseguir num cenário real.

Curiosamente, a batota também é incentivada nos programas de treino. Um dos jogos apresentados na South by Southwest, relacionado com a gestão de mapas e que necessitava da intervenção regular de um técnico informático, acabou por ter um desfecho improvável. A chamada “equipa azul” venceu os adversários da “equipa vermelha”, quando estes tinham melhores hipóteses de ganhar. Afinal, os “azúis” conseguiram chegar à vitória porque recrutaram o técnico, mas sem este saber que estava a ser manipulado.

Seja como for, cartas ou tabuleiro, o próximo passo destes programas de treino vai, no entanto, passar pela realidade virtual – algo já aproveitado pelo exército dos Estados Unidos, por exemplo. “É preciso colocar as suas mentes dentro da pergunta de inteligência que estás a tentar responder e a realidade virtual faz um ótimo trabalho nessa matéria”, acredita Rachel Grunspan, diretora de estratégia de um departamento de inovação digital da CIA, em declarações recolhidas pelo canal de notícias CNN.