O enredo não podia ser melhor para os amantes de espionagem. A Suécia está à procura de um submarino russo que terá invadido as suas águas territoriais. Onde está ele? O que está a fazer? O que significa isto? Ninguém sabe (ainda). Mas os ingredientes da Guerra Fria estão cá todos: secretismo, tensão e uma grande demonstração de poderio militar.

A história começou a ser contada pelos jornais. O diário sueco «Svenska Dagbladet» noticiou que os serviços de inteligência tinham intercetado um pedido de socorro no arquipélago de Estocolmo e, mais tarde, comunicações entre esta zona e a base militar russa de Kaliningrado. Três avistamentos de um submarino considerados credíveis levaram de imediato cerca de 200 militares, com barcos e helicópteros, a começar as buscas. Oficialmente, procura-se por «atividade subaquática estrangeira». Certo é que esta é a maior mobilização militar na Suécia desde a Guerra Fria.

Em seis dias de buscas, nada ficou provado e, até agora, há poucas reações da Rússia, que chegou mesmo a sugerir que o submarino era holandês, uma acusação que a Holanda desmentiu de imediato. Um porta-voz do Ministro da Defesa russo, citado pela Interfax, disse apenas, e misteriosamente, que «os navios e submarinos da Marinha russa estão a cumprir as suas funções nas águas de todo o mundo de acordo com o plano». «Não há situações extraordinárias, muito menos de emergência, que envolvam navios de guerra russos», explicou. Do lado sueco, o comandante supremo das Forças Armadas chegou a admitir uma ação militar, «se for necessária», mas o almirante Anders Grenstad, responsável pela operação de buscas, continua com um discurso cauteloso: «Isto não é uma operação de caça ao submarino com o objetivo de derrubar um adversário com poderio militar». 



Vamos, então, aos cenários possíveis. Para isso, contamos com as explicações do coronel António Almeida Tomé, antigo militar da Força Aérea nos tempos da Guerra Fria.

Hipótese 1: a «incursão» russa pelo Mar Báltico

Almeida Tomé considera esta a hipótese «mais provável». «Esta será mais uma tentativa russa de penetrar nas águas territoriais suecas e detetar as defesas submarinas. Pode ser mais uma incursão russa para explorar os sensores de radar da costa sueca», explicou à TVI24.

Mas como pode um submarino invadir espaço territorial de outro país sem ser detetado pelos radares? «O submarino não pode ser muito grande e terá a tecnologia stealth, que o torna invisível aos radares. Pode ter ainda o apoio de navios de superfície, que podem estar a muitos quilómetros de distância a ajudá-lo a fugir aos radares».



Nos últimos meses, vários países da região báltica viram a tensão com a Rússia aumentar. A Finlândia denunciou que navios militares russos tentaram impedir a atividade de um navio científico finlandês no Báltico. A Letónia detetou o aumento de incursões de submarinos e navios russos perto das suas águas territoriais. Um cidadão da Estónia, alegado espião, foi raptado pelas forças russas. E, já depois do início deste incidente com o submarino na Suécia, a primeira-ministra norueguesa admitiu que uma das razões para não ajudar os Estados Unidos no Iraque foi «a situação mais tensa na região», com «o aumento da atividade russa, tanto pelo ar como pelo mar».

Depois da Ucrânia, Vladimir Putin parece estar a dirigir as suas atenções para aqui. Recorde-se que países como a Estónia, Letónia e Lituânia fizeram parte da ex-URSS e que a Rússia nunca gostou da sua entrada na NATO e na União Europeia. «As marinhas de guerra são, no geral, insuficientes no Báltico. Os russos estão a testar as defesas destes países. Querem saber quanto tempo, depois de invadirem o espaço territorial, demoram a chegar os caças que os vão intercetar. Estão a testar a NATO», afirmou o coronel.

Portugal está, aliás, envolvido neste exercício da NATO, com caças F-16 que patrulham a zona e que confirmaram, segundo o também professor Almeida Tomé, a «imensa frequência de aviões russos no espaço aéreo dos países bálticos». «Os caças intercetam-nos e convidam-nos a abandonar a área». Por isso, não tem dúvidas: «A Guerra Fria continua, mas agora por outros meios».

Hipótese 2: uma «demonstração de força» sueca

Nos últimos meses, dois aviões militares russos entraram no espaço aéreo sueco. Na altura, a Suécia queixou-se de uma «grave violação». Os serviços de inteligência chegaram a divulgar uma fotografia que mostrava um jato russo a ser intercetado:



Segundo o coronel Almeida Tomé, esta pode ser uma forma «pressão da Rússia sobre a Suécia para não se juntar à NATO». No entanto, numa altura em que o novo governo minoritário sueco tomou posse há pouco tempo e em que se debatem os cortes no setor militar, uma «demonstração de força militar» cai mesmo bem. Aliás, o primeiro-ministro, Stefan Lofven, já aproveitou o incidente para anunciar um aumento de orçamento para a Defesa.

«A Suécia está muito bem equipada militarmente. As Forças Armadas suecas são boas e estão atualizadas. A Suécia tem poder económico e militar capaz de responder a uma situação de guerra com a Rússia sozinha», garantiu Almeida Tomé.

A demonstração de que «a Suécia está preparada para esta operação», nas palavras de Stefan Lofven, pode então não passar mesmo disso: de uma encenação militar. O comandante das Forças Armadas suecas, Sverker Goranson, admitiu mesmo que o objetivo desta operação no arquipélago de Estocolmo é «enviar um sinal muito claro de que a Suécia e as suas Forças Armadas estão ativas e preparadas para atuar». Era difícil ter sido mais direto no aviso a Putin.

Hipótese 3: sabotagem do gás para a Lituânia

Em plena crise com os avistamentos em águas suecas, foi o ministro dos Negócios Estrangeiros da Lituânia o primeiro a sugerir uma ligação entre este submarino russo e um terminal de gás natural que se dirige para este país do Báltico, numa altura em que o governo lituano se prepara para se declarar livre da dependência energética em relação à Rússia. Uma «estranha coincidência», escreveu. 
 


Segundo o coronel Almeida Tomé, o submarino russo poderá estar com mergulhadores devidamente equipados e treinados a bordo, preparados para dificultar a instalação do terminal «Independence». «Podem querer colocar um sensor ou qualquer coisa eletrónica para fechar a torneira do gás ou até rebentar com aquilo», sugeriu.

Hipótese 4: avaria ou acidente

Como informou o jornal «Svenska Dagbladet», tudo pode ter começado com um pedido de socorro. Durante a suposta missão, o submarino pode ter avariado ou ter sofrido um acidente. «Por sistema, não fazem isso [o pedido de socorro], só numa extrema emergência. Se tivessem uma avaria, viriam à superfície sem problema. Na dúvida, o submarino será intercetado e é possível a Suécia fazer buscas», explicou o especialista português.

Segundo Almeida Tomé, «seja um submarino secreto ou não, se houver uma emergência, a lei internacional permite a entrada deste em águas estrangeiras». Portanto, em caso de interceção, este até «pode ser um bom argumento dos russos».

A Guerra Fria debaixo de água

Seja qual for o resultado desta operação, o aumento da tensão no Báltico é um dado adquirido. Para os suecos, esta «caça» traz memórias dos anos 80, quando era algo quase comum procurar por submarinos soviéticos. 

O episódio mais famoso ocorreu em outubro de 1981, quando o submarino soviético U137 embateu numa rocha e veio à tona, perto da base naval sueca de Karlskrona.



Enquanto o comandante russo alegava que se tinha perdido devido a uma avaria nos instrumentos de navegação, a União Soviética enviou uma frota de resgate. Militares suecos e russos chegaram a estar frente-a-frente no mar, mas, para evitar um confronto, a URSS recuou. 

A Suécia efetuou buscas ao submarino e muito se falou de armamento nuclear a bordo mas, após ter estado retido durante oito dias, o submarino acabou por ser rebocado e escoltado até águas internacionais, tendo sido entregue à frota soviética.