O conflito na Síria foi desencadeado em março de 2011 pela violenta repressão do regime de Bashar al-Assad de manifestações pacíficas. Desde então, nunca mais houve paz no país. Em março de 2017, quando se cumpriam seis anos de guerra, o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH) contabilizava mais de 465 mil mortos.

Passou um ano e uma outra organização, a I am Syria, contabiliza mais de 500 mil vítimas.

O conflito na Síria ganhou ao longo dos anos uma enorme complexidade, com o envolvimento de países estrangeiros e de grupos ‘jihadistas’, e várias frentes de combate.

O último episódio da extrema violência que se vive na Síria arrasta-se desde domingo, na já fustigada cidade de Ghouta, subúrbios de Damasco. A parte oriental da cidade, onde o regime sírio alega que se escondem rebeldes, está a ser bombardeada pelas forças do Governo, apoiadas por Moscovo.

Só no domingo, o primeiro dia desta nova leva de bombardeamentos, morreram pelo menos 100 pessoas. Entre os mortos de domingo, estão 20 crianças. É, desde 2015, o registo mais sangrento de baixas civis num dia de combates nesta região.

Quase 300 mortos em quatro dias

Em Ghouta, esta chuva de bombas lançadas pelos aviões de Bashar al-Assad, fez já pelo menos 296 mortos, de acordo com o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH). Entre os mortos, estão 71 crianças e 42 mulheres. Outras 1.400 pessoas ficaram feridas na sequência dos bombardeamentos e dos ataques de artilharia.

Os números podem já pecar por defeito. Já têm cerca de 24 horas. Ghouta Oriental é tido como o último grande bastião da oposição ao presidente sírio, Bashar al-Assad, e os bombardeamentos continuam.

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A atual ofensiva das forças do regime sírio nesta zona já começou, no entanto, a 05 de fevereiro. De acordo com dados avançados pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, as vítimas mortais em Ghouta Oriental desde esses primeiros dias de fevereiro são pelo menos 346.

Com cerca de 400 mil habitantes, o enclave rebelde está sitiado pelas forças do regime sírio de Bashar al-Assad desde 2013 e enfrenta uma grave crise humanitária, marcada pela escassez de alimentos e de medicamentos.

Em reação aos raides aéreos realizados pelas forças governamentais, os rebeldes de Ghouta Oriental têm disparado regularmente tiros de morteiro sobre Damasco.

A morte que se respira

Os bombardeamentos em Ghouta estão a ser um episódio mortífero. Mas estão longe de outros que se revelaram ainda mais dramáticos, ao longo dos últimos sete anos.

Já passaram quatro anos e meio, mas, na memória, está ainda o ataque químico de agosto de 2013. De acordo com ativistas sírios, o regime de Bashar al-Assad usou armas químicas contra civis, a 21 de agosto. No dia seguinte, o balanço era de 1300 mortos, entre eles muitas crianças. Uma semana depois, os serviços de inteligência dos Estados Unidos já tinham um balanço mais dramático deste incidente: 1429 mortos, entre eles 426 crianças.

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E a arma não era nova, nas mãos do regime sírio. Em março do mesmo ano, um ataque químico tinha feito 26 mortos. Pelo menos metade eram soldados de Assad.

Em abril do ano passado, pelo menos 58 pessoas morreram, naquilo que parece ter sido um ataque com gás nervoso. Foi na cidade de Khan Sheikhoun, um reduto rebelde, na província de Idlib. O ministro da Defesa diz que se tratou de um acidente: o gás terá sido libertado quando as forças sírias atingiram um depósito de armamento dos terroristas, onde estavam guardadas armas químicas.

A morte que cai do céu

Setembro de 2016 foi um dos meses mais dramáticos. Milhares de bombardeamentos aéreos interromperam um cessar fogo, que tinha sido acordado a 12 de setembro.

No dia 15, pelo menos 23 pessoas morreram, entre elas nove crianças, na sequência de bombardeamentos. Estados Unidos e Rússia trocaram acusações sobre quem tinha violado o cessar fogo.

No dia 17, a coligação liderada pelos Estados Unidos tentou bombardear um reduto do Estado Islâmico, perto do aeroporto de Deir Ezzor. Falhou o alvo e matou 62 soldados sírios.

No fim de semana entre 23 e 25 de setembro de 2016, cerca de 200 bombardeamentos aéreos fustigaram Aleppo. Um ativista sírio citado pela CNN falava numa intensidade de bombardeamentos nunca antes vista.

O fim do Estado Islâmico

O Exército sírio e os seus aliados expulsaram, a 19 de novembro do ano passado, o grupo jihadista Estado Islâmico (EI) de Boukamal, última cidade nas mãos da organização terrorista. De acordo com uma fonte militar citada pelas agências internacionais de informação, o EI ficou a controlar algumas bolsas na Síria.

O fim mais do que anunciado do grupo jihadista no país não trouxe o fim da violência. Desde o início do ano, já morreram largas centenas de pessoas:

4 de janeiro: Um ataque da força aérea russa provocou a morte a 18 civis, no enclave de Ghouta Oriental, anunciou o Observatório Sírio dos Direitos Humanos (OSDH).

21 de janeiro: Uma bomba de gás de cloro envenenou pelo menos 21 pessoas, na cidade de Duoma. Entre as vítimas, estão sete crianças.

7 de fevereiro: Pelo menos 27 civis morreram, entre eles 12 menores, e mais de 60 ficaram feridos na sequência de três bombardeamentos das forças do regime contra bairros controlados pelos rebeldes, nos arredores de Damasco.

20 a 21 de fevereiro: Pelo menos 296 civis, incluindo 71 crianças, morreram nos bombardeamentos sírios ao enclave rebelde de Ghouta.

22 de fevereiro: Pelo menos 13 civis morreram em nova sequência de bombardeamentos das forças governamentais sírias contra Ghouta oriental.