“A situação entre a Rússia e as potências ocidentais é pior hoje do que era no tempo da Guerra Fria”.

(Sergey Lavrov, chefe da diplomacia russa)

                            

“Há dez dias, o Presidente Trump estava a dizer que os Estados Unidos deviam retirar-se da Síria. Nós convencemo-lo de que era necessário ficar. Nós convencemo-lo de que era necessário ficar a longo prazo”

(Emmanuel Macron, Presidente da França)

Há várias “nuances” a analisar no pós intervenção do passado fim-de-semana de EUA/França/Reino Unido na Síria.

A inexistência de vítimas mortais (um dado positivo que faz aumentar a eficácia desta ação, já agora) reforça a suspeita de que os EUA avisaram previamente os russos (que terão depois avisado os sírios) sobre os pormenores essenciais da "represália ocidental" ao ataque químico de 7 de abril, em Douma.

Trump queria mostrar que é mais forte e decidido que Obama e por isso escreveu no twitter “missão cumprida”: a sua verdadeira intenção era que, tal como em 2017, se pudesse demarcar da “inconsequência” de Obama perante a “red line” ultrapassada por Assad em 2013.

Mas convém olhar com atenção para a aliança EUA/França/Reino Unido.

O grande vencedor desta jogada não foi Trump: foi Macron.

De uma assentada, o jovem presidente francês conseguiu que a França fosse citada antes do Reino Unido pelo próprio Presidente dos EUA e ficou em condições de anunciar, na longa entrevista televisiva que deu domingo à noite, que foi ele a convencer Trump a não retirar totalmente a posição militar americana na Síria.

A três semanas da Administração Trump ter que tomar decisão fundamental sobre o acordo nuclear do Irão (afinal os EUA vão querer renova ou rasgar a sua posição?), Trump pode ter perdido espaço de manobra junto de Paris e Londres numa possível renúncia.

Esse acordo, celebrado no segundo mandato presidencial de Obama, não é um mero arranjo bilateral EUA/Irão: é 5+1 e tem a participação da Rússia e dos países mais relevantes da União Europeia.

Os EUA de Trump querem isolar o Irão e reforçar alianças regionais com a Arábia Saudita e Israel, mas o posicionamento salomónico de Macron (a França acaba de reforçar proximidade com a Arábia Saudita) pode tornar a estratégia de hostilidade mais complicada para Donald Trump.

Pelo meio, as críticas sobre a intervenção de sábado ter sido feita antes das provas recolhidas pelas investigações vão perdendo força, com o adiamento imposto pelo regime de Assad e por tropas russas em Damasco: a necessidade de que vão passando mais dias estará, obviamente, ligada ao risco de substâncias químicas ainda poderem vir a ser detetadas nesta fase.

Enquanto isso, a França estuda a possibilidade de retirar a Legião de Honra atribuída pelo ex-Presidente Chirac, em 2001, a Bashar al-Assad. O curso da História nunca pára de nos surpreender.

“Moralmente inapto para ser Presidente”

A intervenção americana, francesa e britânica do fim-de-semana na Síria ainda concentra atenções e indignações, mas há um outro tema em torno de Donald Trump que tem uma relevância enorme e será importante que não passe despercebido.

No livro que esta terça-feira saiu para as bancas nos Estados Unidos (“A Higher Loyalty: Trues, Lies and Leadership”), o ex-diretor do FBI, James Comey, simplesmente arrasa Donald Trump.

Quase um ano depois do Presidente dos EUA o ter demitido por não ceder às pressões em relação às investigações sobre a Russia Collusion, Comey assina um livro com revelações perturbadoras sobre as características do homem que ocupa a Casa Branca.

Na entrevista que deu à ABC News, Comey disse exatamente isto sobre Donald Trump: «Não acho que seja clinicamente inapto para ser Presidente. Mas acho que é moralmente inapto para ser Presidente. Sei que é assustador dizer isto e gostava de não estar em condições de o dizer. Mas é a verdade: é possível que o atual Presidente dos EUA esteja comprometido com os russos. Ele é alguém para quem a verdade não é um princípio com grande valor. E acho que, pelo menos até um certo ponto, o Presidente Trump tentou obstruir a Justiça. Uma pessoa que vê equivalência moral no que se passou em Charlottesville, que fala sobre as mulheres e que as trata da forma que ele tratou (como pedaços de carne), que mente constantemente sobre matérias importantes e sobre questões irrelevantes e que insiste que o povo americano acredita nele, essa pessoa não está moralmente habilitada a ser Presidente dos Estados Unidos».

Isto é o anterior diretor do FBI, James Comey, a falar sobre Donald Trump. Mais um a achar que isto não é bem um Presidente dos Estados Unidos.

James Comey -- o antigo diretor do FBI que, a 11 dias das eleições presidenciais na América, enviou carta ao Congresso comprometedora para os interesses de Hillary Clinton e meses mais tarde foi despedido por Donald Trump – assumiu que o facto de que “Hillary Clinton muito provavelmente iria ganhar aquelas eleições e isso foi um fator relevante para a decisão de enviar essa carta, de modo a informar sobre a existência de mais investigações sobre os emails”.

Mais vale tarde do que nunca, mas se há momentos em que valia a pena evitar um erro em vez de, mais tarde, pedir desculpa, este é certamente um deles.

Sem essa carta, Hillary teria ganho a Trump por 8 a 10 pontos.

Com a carta, só teve mais 2,5% dos votos – e isso, lamentavelmente, permitiu a eleição de alguém que não é bem um Presidente dos Estados Unidos.

Foi o que se viu. Que pena, Jim.

Ted Malloch, a nova pista da Comissão Mueller

Ted Malloch pode ser a próxima figura-chave na investigação de Robert Mueller relativamente à “Russia Collusion”.

Este cidadão americano, professor no Reino Unido, é presidente-executivo da Global Fiduciary Governance e chegou a liderar o Roosevelt Group.

Na Grã-Bretanha tem, há alguns anos, ligações políticas a Nigel Farage e foi forte defensor do Brexit, durante o referendo.

Donald Trump chegou a pensar nele para Embaixador dos EUA na União Europeia, mas já não foi a tempo de concretizar a intenção: há duas semanas, depois de desembarcar num avião proveniente de Boston, Ted Malloch foi detido pelo FBI, no Aeroporto de Logan, na sequência de um “subpoena” (intimação”) emitido pelo procurador especial Robert Mueller, no âmbito das investigações das “Russia Probes”.

A base das suspeitas de Muller contra Malloch fundam-se nas ligações deste académico com ligações à ultradireita americana e britânica com Roger Stone (o sinistro “spinner” de Trump que o próprio Donald considerou um dia ser “a personificação do Mal numa só pessoa”).

Robert Mueller quererá também esclarecer uma outra suspeita que, nas suas investigações, terá sido levantada contra Ted Malloch: é mesmo verdade que se encontrou, no auge do duelo presidencial Trump/Hillary, com o embaixador equatoriano em Londres, o mesmo que abrigo diplomático a Julian Assange, líder do Wikileaks.

Citado pelo Guardian, Ted Malloch negou “qualquer envolvimento com a Rússia ou interesses russos” e manifestou um misto de surpresa e desconforto pelo facto de os agentes do FBI que detiveram “saberem de forma incrível tudo” sobre a sua vida.

Que ligação existe entre Roger Stone e a questão Wikileaks? Stone parecia saber antecipadamente que o Wikileaks tinha os emails de Hillary e dos democratas, facto que viria a confirmar-se com a libertação de milhares de mensagens privadas nos dias que antecederam a eleição.

Será Ted Malloch uma peça importante para desvendar mais pormenores sobre isto?

E terá a sua ligação a Farage (que foi manifestamente ajudado pelos russos na campanha pelo Brexit) relevância para o envolver na Russia Collusion?

Esperemos pelo trabalho (até agora demorado, mas competente e sólido) da equipa de Robert Mueller.

‘Bomb Iran’

John Bolton, embaixador dos EUA nas Nações Unidas durante a Administração George W. Bush, suceder ao general HR McMaster como Conselheiro de Segurança Nacional da Administração Trump.

Como comentador da FOX News, nos últimos anos, uma das frases que mais vezes repetiu foi: "Bomb Iran".

Sobre a escalada de tensão com a Rússia, defende: "Os EUA devem lançar uma guerra cibernética contra os russos e usar o WikiLeaks como tubo de ensaio".

Sim, temos razões para estar preocupados: todos os sinais indicam que a Presidência Trump está a entrar na sua fase mais perigosa.

Ainda mais do que até agora.