Mentiras, mentiras e algumas pequenas e poucas verdades é como o presidente da Síria interpreta as acusações de que o seu regime é alvo. Repetidamente.

Na primeira entrevista após ter sido acusado de promover execuções arbitrárias na prisão militar de Saydnaya, perto da capital, Damasco, Assad negou-as. Sem, contudo, pestanejar sobre a existência da pena de morte no país, que vê como "parte da lei síria"

Vivemos na era das notícias falsas. Tudo pode ser forjado nos dias de hoje", afirmou Bashar al-Assad na entrevista dada a Michael Isikoff, do portal Yahoo News.

Há dias, a Amnistia Internacional publicou um relatório com base em testemunhos de 84 pessoas que conheceram de perto a cadeia de Saydnaya, entre juízes, médicos, guardas e prisioneiros. O documento dava conta que, em quatro anos, entre 2011 e 2015, 13 mil pessoas tinham sido mortas na prisão. Pela calada, os presos eram vendados e amarrados durante a noite e enforcados, à razão de uns 50 por semana.

Isso não quer dizer nada... Quando se precisa de fazer um relatório, precisamos de provas concretas", expôs Assad.

- Sabe o que se passa nessa prisão? Já lá esteve?".

- Não, não estive. Tenho estado no palácio presidencial. Não nessa prisão", retorquiu o presidente sírio.

Assad justifica-se ainda afirmando não fazer sentido pensar-se em julgamentos secretos sem advogados só para executar prisioneiros.

Para que precisaríamos disso, se isso pode ser feito legalmente?", respondeu Assad, assumindo que a pena de morte faz "parte da lei síria".

Avisos aos Estados Unidos

Após seis anos de guerra civil, o presidente sírio não desarma. Na entrevista de 34 minutos, gravada por cinco operadores de câmara do palácio presidencial, Assad fez questão de frisar que "Damasco é hoje segura. Já se aproxima da vida normal, embora não completamente".

Na primeira vez que fala para o mundo, após a posse do novo presidente norte-americano, o líder sírio não perdeu a oportunidade de condenar a propalada ideia de Trump, de avançar com tropas pela Síria para combater o auto-intitulado Estado Islâmico, sem a sua anuência.

Não é de todo uma ideia realista", afirmou Assad, sobre a anunciada intenção de Trump de criar "bolsas de segurança" no território sírio. Admitiu até cooperar no futuro com os Estados Unidos, mas apenas "após uma aproximação entre russos e norte-americanos".

Recentemente, o apoio da aviação russa foi decisivo para que as tropas do Estado sírio conquistassem a zona leste da cidade de Alepo, anterior bastião dos radicais do Daesh. O que, para Bashar al-Assad, mostra a diferença face aos norte-americanos.

Essa campanha contra o ISIS é cosmética", salientou o presidente, lembrando que o poder dos radicais "só começou a encolher após a intervenção russa" e não dos Estados Unidos.

Como é que eles [ISIS] podiam usurpar os nossos campos de petróleo e exportá-lo, com milhares de camiões a seguir para a Turquia, sem serem vistos pelos seus drones e pelos nossos satélites, enquanto os russos foram capazes de o fazer, de atacá-los e destruí-los?", questionou o presidente sírio.

Sauditas e norte-americanos responsáveis

Na entrevista, Assad voltou a responsabilizar norte-americanos e os seus aliados sauditas de terem suportado o aparecimento e crescimento do chamado Estado Islâmico.

Nós não o criámos. Vocês criaram-no. Os Estados Unidos criaram toda esta confusão. Quem apoio os rebeldes, chamando-lhes "rebeldes moderados" enquanto eles se tornavam no ISIS e no al-Nusra na Síria? Não fomos nós. Portanto, há uma conspiração. isto são factos. Isto é a realidade!", afirmou Assad.

Apesar das divergências. o presidente sírio mostrou perceber os motivos que levaram Donald Trump a avançar com restrições à imigração para os Estados Unidos, afetando cidadãos e refugiados sírios.

Assad assume que entre os 4,8 milhões de refugiados sírios há "simpatizantes de terroristas". Falou mesmo de fotografias mostrando rebeldes, "segurando metralhadoras ou matando pessoas", que mais tarde voltaram a aparecer na Europa ocidental. Mesmo que evite precisar quantos fundamentalistas estarão embrenhados entre os que fugiram da guerra.

Não é significativo, porque não é preciso um número significativo para cometer atrocidades", considerou Bashar al-Assad.