Os habitantes do enclave rebelde de Ghouta Oriental, na Síria, já só estão “à espera de morrer”. É assim que um dos residentes descreve a situação da população, naquela que é já considerada a ofensiva mais sangrenta desde o início do conflito no país em 2011.

Estamos à espera da nossa vez para morrer. É a única coisa que posso dizer”, afirma, à agência Reuters, Bilal Abu Salah, de 22 anos, cuja mulher está grávida de cinco meses do primeiro filho, em Douma, a maior cidade de Ghouta.

Bilal Abu Salah teme que o terror provocado pelos bombardeamentos leve a mulher a ter um parto prematuro.

Quase todas as pessoas que vivem aqui estão agora em abrigos. Há cinco ou seis famílias numa casa. Não há comida, nem mercados", acrescenta.

O ritmo dos bombardeamentos pareceu diminuir durante a noite, mas a intensidade foi retomada esta quarta-feira de manhã, informa o Observatório Sírio dos Direitos Humanos. As forças governamentais dispararam centenas de “rocketes” e lançaram bombas a partir de helicópteros nas cidades e aldeias da região, que fica nos arredores de Damasco.

Os mísseis e os morteiros estão a cair sobre nós como chuva. Não temos onde nos esconder e o pesadelo não acabou”, conta à BBC Firas Abdullah, outro morador de Ghouta Oriental.

Ghouta é o único grande reduto próximo da capital síria que ainda está sob controlo da oposição e o governo de Bashar al-Assad tenta retomar o território.

As consequências do ataque têm sido dramáticas para a população. Pelo menos 24 civis, entre os quais duas crianças, morreram esta quarta-feira, em bombardeamentos do regime contra o último grande bastião rebelde. Os bombardeamentos de hoje concentraram-se na localidade de Kfar Batna, onde pelo menos 22 civis morreram, refere o Observatório Sírio dos Direitos Humanos.

De acordo com a mesma organização não-governamental, pelo menos 296 pessoas morreram em Ghouta Oriental desde segunda-feira, das quais 71 eram crianças. Outras 1.400 pessoas ficaram feridas. É o número mais alto de mortos em 48 horas desde o ataque químico em 2013 que provocou mais de mil mortos também em Ghouta, indica o mesmo Observatório.

É possível ouvir o grito e o choro das mulheres e das crianças pelas janelas das casas", diz Abdullah à BBC.

Perante o arrastamento do conflito na Síria, surgem apelos no sentido de um calar das armas.

As Nações Unidas apelam ao fim dos ataques e reconhecem que a situação humanitária está fora de controlo. O secretário-geral, António Guterres, chama a atenção para um conflito que está a aumentar de intensidade e está preocupado com os civis em Ghouta Oriental.

Entretanto, a Rússia propôs hoje a realização, já esta quinta-feira, de uma reunião de urgência do Conselho de Segurança da ONU para analisar a situação. Isto para todas as partes apresentarem "a respetiva visão, a respetiva interpretação da situação e propor as formas para sair da atual situação”, declarou o embaixador russo junto das Nações Unidas, Vassily Nebenzia, durante uma reunião do Conselho do Segurança realizada hoje.

Na terça-feira, o diretor da Unicef para o Médio Oriente e Norte da África, Geert Cappelaere, disse que já não há palavras para as imagens que chegam da Síria. A agência das Nações Unidas para a Infância emitiu um comunicado em branco em homenagem às crianças mortas.

A oposição síria no exílio já denunciou o "silêncio internacional" contra "crimes" das forças leais a Assad, numa guerra que devasta a Síria há quase sete anos.

"É preciso que a Europa e a comunidade internacional adotem ações urgentes para acabar com esta situação em Ghouta Oriental. O que está a acontecer na região é uma vingança da Rússia pelo que aconteceu a 7 e a 9 de fevereiro em Deir Al Zur. Não faz sentido que a comunidade internacional fale do uso de gás sarin pelo regime de Al-Assad e não da morte de tantos mártires e feridos", refere Rami Abdurrahman, do Observatório Sírio para os Direitos Humanos.

Massacre, extermínio e violência desenfreada são algumas das palavras usadas para resumir o que está a acontecer na região de Ghouta, um distrito agrícola nos arredores da capital, com cerca de 400 mil habitantes que vivem cercados pelas forças do regime há anos e que, desde 5 de fevereiro, é alvo de uma ofensiva das forças do regime.

O intenso bombardeamento da zona visa aparentemente abrir caminho a uma ofensiva terrestre que permita ao regime recuperar o controlo da zona, nas mãos dos rebeldes desde 2012.