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Jornalistas portugueses entram na Síria: situação «é muito pior»

Há pessoas a serem «assassinadas por nada», diz Tiago Carrasco, que entrou no país, através da fronteira com a Turquia, juntamente com outros dois colegas

Por: Redacção / MM  |  10- 2- 2012  13: 1

Soldados sírios que desertaram para se juntar ao exército num protesto contra o presidente da Síria al-Assad, em Khalidieh (Foto: Reuters)

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Três jornalistas portugueses entraram clandestinamente na Síria, passaram cinco dias no Norte do país, e contam agora que a situação «é muito pior» do que aparece nas notícias.

«A situação está terrível», resume, por telefone, à agência Lusa, o jornalista Tiago Carrasco, que, juntamente com o fotojornalista João Henriques e o operador de câmara João Fontes, dá corpo ao projecto «A Estrada da Revolução», que pretende fazer o percurso Istambul-Lisboa, passando pelos países da Primavera Árabe.

O que se está a passar na Síria «é muito pior» do que o que mostram as televisões. Há pessoas a serem «assassinadas por nada», diz Tiago Carrasco, como o caso, a que assistiu, de «duas miúdas que apanhavam batatas quando foram bombardeadas» por artilharia pesada.

«O sistema de repressão do regime é matar às cegas, sem critério nenhum», diz. É de tal ordem que «ninguém acredita» que os atiradores do presidente Bashar al-Assad sejam sírios, «porque custa-lhes acreditar que um sírio possa matar assim outros sírios».

Já de regresso a Antakya, na Turquia, Tiago Carrasco descreve a Síria como um país onde «as pessoas vivem para a revolução» e «estão na rua de manhã à noite, a protestar». Até porque «sentem que vão morrer, que eles serão os próximos». Há até quem tenha deixado de beber álcool e de ter relações sexuais para ser «um melhor mártir».

Os três portugueses entraram na Síria no dia 02 à noite e passaram cinco dias na região de Idleb, no Norte, «conhecida por oferecer muita resistência» e que está sob o controlo do Exército Sírio-Livre (ESL) desde Agosto. Entraram clandestinamente pela fronteira com a Turquia, traficados pela associação Syrian High Rescue Office, que está a distribuir ajuda humanitária à população (alimentos, medicamentos) e também armas para o ESL.

Nas montanhas entre Idleb e Allepo, nas cidades de Binnich e Taftanaz, onde a população é totalmente sunita (uma das correntes do islão), os três portugueses encontraram uma região «muito bem controlada» pelo ESL. Mas «é um exército muito precário», diz. «Não estão minimamente organizados. (¿) O armamento que têm é o que roubaram quando desertaram do exército e o que conseguem capturar nos combates», conta.

«Um professor de matemática, um agricultor¿ há de tudo [no ESL]. São pessoas que sabem manejar uma arma», refere.

A elite no poder é alauíta (vertente da corrente islâmica xiita) e neste conflito «há uma divisão religiosa evidente». Mas «não é um conflito religioso».

Para já, todos reivindicam «uma Síria de um só povo», mas Tiago Carrasco antecipa que tudo se prolongue até «uma guerra civil». O ESL «ainda não tem capacidade de ataque», mas «todos os dias há militares a desertarem» e «vai fortalecer-se de dia para dia».

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