Entre o direito a viver e o direito a crescer. Até onde é que a ciência pode alterar o curso de vida de um deficiente: a questão ética que se coloca. A BBC reporta dois casos de meninas deficientes e mães com pontos de vista diferentes. O que une Charlie e Livvy e o que separa Jenn e Amanda.
 
Os pais de Charlie Hooper não permitiram que a filha morresse, apesar do diagnóstico grave. Jenn Hooper deu à luz a menina, em 2005, mas a alegria depressa se tornou em desespero. Charlie não respirava.
 
Uma hora depois, o bebé começou a respirar, finalmente, mas, o cérebro tinha sido severamente afetado pela falta de oxigénio.É cega, sofre de epilepsia e nunca vai andar ou falar. A mãe esperou cinco anos por um sorriso da filha.
 
Se a alegria dos pais é ver os filhos crescer, no caso de Jenn Hooper e do marido, cedo procuraram tratamentos que retardassem o crescimento da filha. Charlie será, apesar de terem filhos mais novos, sempre o bebé da família.
 
Um tratamento hormonal à base de estrogénio é capaz de atenuar o crescimento. No entanto, uma comissão de ética e saúde neo-zelandesa entendeu que não podia dar luz verde a esse tipo de tratamento e Jenn Hooper optou por levar Charlie para a Coreia do Sul.
 
A menina também começou a menstruar cedo, logo aos sete anos. Os pais resolveram retirar o útero da filha, para que não voltasse a ter dores nem menstruasse.
 
Noutro continente, em Inglaterra, Amanda Mortensen pensa de maneira diferente. Muito mais do que um continente distancia as formas de amar destas duas mães de filhas deficientes. Amanda, mãe de Livvy, com 15 anos e apenas 35 quilos, nunca quis manipular o crescimento da filha, apesar desta ter estado recentemente internada, durante três semanas, devido ao desequilíbrio hormonal provocado pelo período.
 
Amanda Mortensen entende que a filha “tem direitos” e que nunca pensou em alterar o curso da vida de Livvy, tal como nunca ninguém imagina dizer a uma jovem saudável que não pode crescer, como escreve a BBC.

Jenn Hooper, segundo a BBC, “não se arrepende” de nenhum dos atos e afirma que tudo o que faz (e fez) é “por amor” à filha. Hoje, Charlie, de 25 quilos, já não deverá sofrer grandes alterações no corpo, mas a mãe tem esperança de que, um dia, a filha responda à sua voz. Enquanto isso não acontece, a mãe congratula-se pela filha poder viajar e não estar fechada num quarto com os olhos virados para o teto.
 
Amanda Mortensen não concorda, mas inibe-se de julgar alguém que tenha uma opinião diferente da sua.