A vítima de violação coletiva nas festas de San Fermín, em Pamplona, escreveu uma carta a uma apresentadora espanhola, naquela que é a primeira vez que fala publicamente sobre o momento que está a passar e que acontece cinco dias depois de o grupo condenado por abusos sexuais, e conhecido como “La Manada”, ter saído em liberdade.

O nome, rosto ou voz desta jovem, violada por cinco homens durante aquelas festas em 2016, então com apenas 18 anos, não é conhecido, tal como não eram conhecidas afirmações suas sobre o sucedido.

Palavras que chegam também numa altura em que milhares de pessoas, sobretudo mulheres, protestam em várias cidades de Espanha contra a polémica sentença do juiz, que não condenou estes homens por violação, permitindo ainda que saíssem em liberdade.

A vítima, que já tinha sido contactada, através de uma intermediária, pelo programa da jornalista Ana Rosa da Telecinco, fez chegar por uma “pessoa de confiança” uma longa carta à redação, divulgada nesta quarta-feira, na qual agradece à família, a conhecidos e a anónimos por estarem do seu lado, apelando a todas as vítimas de violação para que não se calem, que denunciem.

Em nenhum momento a jovem fala do que aconteceu, lembrando apenas que o facto de ter bebido, falado com estranhos, ter andado sozinha na rua ou vestido roupa mais reveladora do corpo não pode justificar uma violação.

Abaixo pode ler, na íntegra, a carta divulgada pela estação espanhola Telecinco.

“Suponho que pensam que esta carta é para contar a minha versão e a minha vivência, mas não. Esta carta é de agradecimento. Mãe, pai, obrigada não só pelo apoio mas também por terem conseguido encontrar forças onde não as tinham e terem-me as dado. Obrigada por tudo o que me ensinaram e por tudo o que me ensinarão, mas, sobretudo, por não me abandonarem, nem se abandonarem, por muito que quisessem. Obrigada às minhas tias, aos meus avós, aos meus tios e aos meus primos. Por fazerem-me ver que é nisto que se baseia uma família. Em estar sempre, aconteça o que acontecer.

Quero também agradecer aos meus amigos, meus eleitos, as melhores escolhas que fiz na vida. Por me apoiarem, chorarem comigo, chatearem-se porque não sentir o que devia. Por rirem, por fazerem-me ver que o melhor ou pior da vida é para ser compartilhado e, principalmente, por quererem. Vocês ergueram-me.

Também quero agradecer a todas as pessoas que me ajudaram neste caminho. Oxalá nunca os tivesse conhecido, mas a vida é assim e traz-te as melhores pessoas nos piores momentos e isso é por algum motivo. Oxalá nunca te tivesse conhecido, amiga, de verdade. Mas graças a isto tenho uma pessoa imprescindível na minha vida. Uma companheira de batalha que nunca vou esquecer.

Também quero agradecer a todas as pessoas que, sem me conhecerem, tomaram as ruas de Espanha e me deram voz quando muitos me tentaram calar. Obrigada por não me deixarem sozinha. Por acreditarem em mim, irmãs. Obrigada por tudo, de coração.

Obrigada a todos os que falaram de mim para repudiar o que aconteceu. Associações, anónimos, políticos, famosos, jornalistas que me respeitaram, todos os que se preocuparam comigo. Obrigada por me fazerem sentir outra vez parte da sociedade. Obrigada por lutarem, por gritarem, por chorarem e apoiarem esta causa.

Por fim, o mais importante para mim: denunciarem. Ninguém tem de passar por isto. Ninguém tem de lamentar-se por beber, falar com estranhos numa festa, ir sozinha para casa ou usar minissaia. Não temos de lamentar por algo que pode acontecer a qualquer um. Garanto-vos. Tenham cuidado com o que dizem, não imaginam as vezes que ouvi falar da 'rapariga de sanfermines' sem saberem que essa rapariga estava sentada ao vosso lado. Certamente, não sou 'a rapariga de sanfermines'. Sou a filha, a neta, a amiga e, talvez, esse 'de' seja uma de vós, por isso, por favor, pensem antes de falar.

Tal como não gozamos com doenças, não podemos gozar com uma violação. É indecente e está nas nossas mãos mudar essa mentalidade. Peço-vos apenas que por muito que pensem que não vão acreditar em vocês, denunciem. Posso assegurar-vos que o caminho a percorrer não é bom, mas teria sido pior se não tivesse denunciado, pensem nisso.

Não basta condenar, todos temos de participar. Pessoalmente, se o meu caso serviu para mudar a consciência de uma pessoa ou para dar força a outra para lutar, dou-me por satisfeita.

Para todas as mulheres, homens, meninas e meninos que estão a passar por algo parecido: é possível sair disto. Pensarão que não têm forças para lutar, mas não imaginam a força que temos. Conta a um amigo, a um familiar, à polícia, num tweet, fá-lo como quiseres, mas conta. Não fiquem calados, porque se o fizerem estão a deixá-los ganhar."