A crise na Ucrânia alterou o discurso alemão de comemoração dos 100 anos da I Guerra Mundial e dos 75 da II, passando do destaque da paz na Europa para o medo de que os tanques russos violem as fronteiras.

«Hoje em dia somos mais sábios do que há 100 anos e respondemos com um claro não à pergunta se corremos o perigo de transformar de novo a Europa num campo de batalha», afirmara a 14 de março o ministro alemão dos Assuntos Exteriores, Franz-Walter Steinmeier.

A ocasião era um debate no Museu da História da Alemanha sobre o detonador da Grande Guerra ¿ o assassínio em Sarajevo do herdeiro dos Habsburgo, Francisco Fernando, em junho de 1914 ¿ e a lição aprendida do conflito que devastou a Europa.

Este discurso foi proferido dois dias antes do referendo na Crimeia, que precipitou a anexação desta península pela Rússia, quando a diplomacia da primeira economia europeia evitava ainda falar de uma possível extensão da crise ao leste da Ucrânia.

«A Rússia parece disposta a fazer rodar os seus tanques sobre as fronteiras europeias», afirmou esta terça-feira Sigmar Gabriel, vice- chanceler do Governo de Angela Merkel e líder do Partido Social-Democrata, ao qual pertence Franz-Walter Steinmeier.

A declaração de Sigmar Gabriel, ministro de Economia e Energia, foi proferida num ato do partido, em memória do início da Grande Guerra, na catedral francesa de Gendarmenmarkt, em Berlim, no coração histórico da capital alemã.

Os tanques russos recuperaram assim um caráter de ameaça que provavelmente nunca saiu da memória coletiva de Berlim, por muito que a bandeira com a foice e o martelo içada sobre o Reichstag, em abril de 1945, simbolize a vitória aliada sobre o Terceiro Reich.

Na batalha de Berlim caíram 30 mil soldados soviéticos, mas além do «libertação», que significou a vitória sobre o nazismo, ficou o trauma de um milhão de mulheres violadas por membros do Exército Vermelho em território do Reich.

«Não queremos mais os tanques russos junto às Portas de Brandeburgo», escrevia hoje o popular diário «Bild», que lançou uma campanha de recolha de assinaturas para a retirada dos dois blindados T-34 das imediações do mais emblemático monumento de Berlim.

Os dois tanques fazem parte de um conjunto monumental que recorda a batalha de Berlim e a capitulação incondicional da Alemanha nazi, sete dias após o suicídio de Adolf Hitler no seu ¿bunker¿, a 30 de abril de 1945.

«Nunca se deve dar a paz como algo garantido», advertia Steinmeier, no seu discurso de março, apesar de na altura ainda se evitar lançar o pânico e falar de escalada.

Essa mesma frase repetiu esta semana, no ato do SPD, o primeiro-ministro francês, Manuel Valls, para destacar o eixo franco-alemão como exemplo de uma amizade surgida entre dois vizinhos que tinham combatido como inimigos acérrimos durante séculos.

Paris e Berlim representam, décadas depois do fim do último grande conflito europeu, o «compromisso inquebrável de cooperação e paz», disse Sigmar Gabriel, enquanto que a parte russa assomiu «o velho espírito nacionalista e a confrontação pelo poder».