A função de Portugal como «porta de entrada» para o Irão estabelecer contactos com os países lusófonos foi esta quarta-feira sublinhada pelo chefe da diplomacia de Teerão, Javad Zarif, que visitou Lisboa a convite do seu homólogo português Rui Machete.

«Portugal é uma porta de entrada para o Irão promover contactos com os países de língua portuguesa, uma área que privilegiamos sobretudo em África, onde desenvolvemos boas relações há muitos anos», considerou o responsável iraniano, antes de se referir a um «novo dia» nas relações entre os dois países.


«Pode ser um novo dia para as nossas relações com Portugal» e com o ocidente, assinalou, numa referência ao recente acordo provisório sobre o programa nuclear iraniano que deverá ser concluído de forma global até ao final e junho, com a perspetiva do fim das sanções internacionais aplicadas desde há longos anos ao país.

A deslocação de Javad Zarif a Lisboa retribuiu a visita do ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros (MENE) Rui Machete ao Irão, há cerca de três meses. Para além do encontro com o seu homólogo, Javad Zarif reuniu-se previamente com o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, e anunciou uma visita para breve ao seu país do vice-primeiro-ministro Paulo Portas.

Ao iniciar a conferência de imprensa comum, Rui Machete recordou que os dois países «comemoram 500 anos desde o início do seu relacionamento diplomático» e definiu o atual estado das relações bilaterais, um dos temas do encontro, como «bom e com tendência para melhorar».

Numa referência à sua recente deslocação oficial à república islâmica, Machete disse que Portugal pretende aproveitar o seu «potencial económico e que constitui um grande mercado para os produtos e serviços portugueses, sobretudo em setores como a construção automóvel, energias renováveis ou construção imobiliária de infraestruturas onde o valor das empresas portuguesas é reconhecido e onde o Irão tem apostado muito».

O ministro português destacou ainda os «bons resultados» das negociações sobre o programa nuclear que decorreram em Lausanne e destacou os «esforços da alta representante da UE (para a Política Externa e de Segurança), Federica Mogherini, pelo secretário de Estado norte-americano, John Kerry, e restantes colegas que tornaram este acordo possível, e o trabalho do representante iraniano aqui presente».

Numa referência ao acordo definitivo que deverá ser anunciado até finais de junho, Machete exortou o Irão a «manter esse mesmo grau de empenho e confiança e que permita a redação de um acordo final».


A abordagem dos conflitos regionais, as ameaças «de grande dimensão» e que requerem «resposta concertada da comunidade internacional», a necessidade de «contrariar veementemente e sem reservas as mensagens xenófobas e radicais de determinadas organizações, como Daesh (o movimento extremista Estado islâmico), Al-Qaida e respetivos afiliados», foram ainda aspetos salientados pelo MENE.

«Mas para que isso aconteça é necessário que se promova cultura de diálogo e tolerância. A perseguição a que muitas minorias ou populações mais vulneráveis estão sujeitas é um crime para a própria estrutura social de muitos países da região», sustentou.

Neste aspeto, Machete encorajou o Irão a «usar da sua influência regional, que é muito importante, para promover esta cultura de tolerância e estabelecer pontes e promover o diálogo de forma a contrariar a visão de que existe um confronto entre o xiismo e o sunismo».

«Estamos no começo de uma nova fase de enorme importância em que cabe ao Irão um papel muito importante e confiamos que está à altura desse papel», frisou.

Estes aspetos também foram sublinhados pelo ministro iraniano, que se referiu ao «muito trabalho a fazer, aos desafios comuns, porque o extremismo, terrorismo e tráfico de droga na nossa região são problemas interligados que estão a expandir-se e que são uma ameaça».

A necessidade de «envolvimento e apoio ativo» dos principais atores internacionais na resolução dos principais desafios, em particular na conturbada região do Médio oriente, mereceu ainda a atenção de Javad Zarif.

«Necessitamos de terminar com assuntos que foram fabricados, o Irão nunca pretendeu desenvolver armas nucleares, porque as consideramos não apenas imorais, mas na prática inúteis em termos de dissuasão», assinalou.

E concluiu: «Pode ser um novo dia para as relações entre Portugal e o Irão, mas também para as relações entre o Irão e o ocidente», como reporta a Lusa.