São centenas de milhares de pessoas, incluindo mulheres e crianças, que têm fugido às atrocidades exercidas pelas forças do governo. A violência sobre o povo rohingya em Myanmar tem sido denunciado por ativistas de todo o mundo e a Organização das Nações Unidas (ONU) já falou mesmo que está em curso uma “limpeza étnica”. Mas, afinal, como começou esta crise?

Na verdade, a crise que afeta o povo rohingya é uma das mais longas e mais negligenciadas do mundo. Quem o diz é o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) que há muito considera esta minoria étnica muçulmana e hindu um dos povos mais perseguidos do mundo.

A maior comunidade do mundo está na antiga Birmânia, país predominantemente budista, no estado de Rakhine. A sua origem não é consensual: há quem acredite que se trata de um povo indígena daquela região e há quem defenda que se tratam de imigrantes muçulmanos do território do agora Bangladesh que foram para Myanmar durante a ocupação britânica. 

O certo é que há mais de um milhão de rohingyas naquele estado do oeste do país e todos são alvo de discriminação. É que, apesar de estarem ali há várias gerações, é-lhes negada a cidadania e direitos fundamentais, conforme foi estipulado pela Lei da Cidadania do país, que data de 1982. Para se ter uma ideia, os rohingyas não podem ter uma casa, nem sequer um terreno, não podem casar e não podem viajar. 

Por tudo isto, a Human Right Watch considera que este é "um dos maiores povos do mundo sem pátria" e a ONU descreve-os como uma minoria "sem amigos e sem terra".

Nos últimos anos, as mudanças políticas geraram tensões sociais em Myanmar que, por sua vez, despoletaram ondas de violência sobre este povo. E apesar de o país, que viveu em ditadura militar durante mais de meio século, ter agora um governo que foi eleito democraticamente através das eleições realizadas em 2015, a situação não melhorou para os rohingya, que continuam a ser alvo de discriminação.

Ora, recentemente, uma escalada de violência sobre este povo tem chamado a atenção da comunidade internacional. Tudo começou no final de agosto, depois de alguns rebeldes rohingya, do chamado Exército Arakan de Salvação Rohingya, terem atacado alguns postos policiais.

A resposta do exército de Myanmar não se fez esperar e foi iniciada uma operação militar que incendiou centenas de aldeias, espalhou minas na fronteira com o Bangladesh e levou à morte de milhares de civis.

O Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos do Homem não tem dúvidas: a forma como Myanmar está a tratar esta minoria muçulmana aparenta ser “um exemplo clássico de limpeza étnica”. Mais de um milhar de pessoas já terá morrido. 

Nos últimos dias, o país assiste a um êxodo em massa sem precedentes. A Amnistia Internacional alerta que, em três semanas, este êxodo superou o total de refugiados que chegaram à Europa no ano passado.

Estima-se que 400 mil pessoas já tenham fugido para o vizinho Bangladesh, que, entretanto, faz de tudo para evitar mais entradas no seu território. Segundo a Unicef, cerca de 60% destes novos refugiados são crianças.

Esta terça-feira, Aung San Suu Kyi, conselheira de Estado e líder de facto do governo presidido por Htin Kyaw, quebrou finalmente o silêncio sobre a crise. A Nobel da Paz afirmou que Myanmar "não receia o escrutínio internacional". Aung San Suu Kyi alegou que a maioria das vilas dos rohingya não foi afetada, apesar de imagens de satélite mostrarem que centenas foram destruídas. Suu Kyi sublinhou ainda que é preciso ouvir os dois lados do conflito e identificar quais são os "verdadeiros problemas".