Gu Dar Pyin é a aldeia, à qual as autoridades de Myanmar - a antiga Birmânia, país encravado entre a Índia, China e Tailândia - vedaram o acesso a jornalistas e observadores e onde estarão, pelo menos, cinco valas comuns com cadáveres de pessoas de etnia Rohingya, maioritariamente muçulmanos, vivendo há séculos num estado de maioria budista.

Com base em entrevistas a refugiados rohingya em campos no vizinho Bangladesh, e após visionar vídeos gravados com telemóveis, o repórter Foster Klug, da agência noticiosa norte-americana Associated Press (AP), relata que continua no terreno uma campanha de limpeza étnica, desde o verão passado, por parte do exército de Myanmar, tendo como alvo os Rohingya.

Myanmar cortou o acesso a Gu Dar Pyin, por isso é incerto quantas pessoas morreram, mas imagens de satélite obtidas pela AP mostram uma aldeia dizimada.  Os chefes da comunidade compilaram uma lista de 75 mortos até agora, mas os aldeãos estimam que o número possa ser superior a 400, baseando-se nos testemunhos de familiares e pelos corpos que viram nas valas", escreveu Foster Klug.

De acordo com o repórter, "quase todos os aldeãos entrevistados pela AP viram três grandes valas comuns na entrada a norte de Gu Dar Pyin".

Testemunhas dizem que os soldados juntaram e mataram a maioria dos Rohingya. Uma mão cheia de testemunhas confirmou a existência de duas outras grandes valas comuns perto do monte do cemitério e pequenas sepulturas espoalhadas pela aldeia", escreveu o repórter da AP.

A 27 de agosto do ano passado, cerca de 200 soldados, conhecidos como Tatmadaw, varreram a área, de acordo com testemunhas. Mohammad Sha, de 37 anos, comerciante e agricultor, contou à AP que se escondeu num bosque de coqueiros perto de um rio com mais uma centena de outras pessoas. Terão saqueado e queimado as casas e atirado a matar contra quem não tivesse fugido.

“Características de um genocídio"

A reportagem da Associated Press surge no momento em que o enviado especial das Nações Unidas para os direitos humanos em Myanmar, na Birmânia, considerou que as operações violentas dos militares contra os muçulmanos de origem rohingya têm “características de um genocídio".

Estamos a ver sinais e está a caminhar nesse sentido”, foram as palavras de Yanghee Lee, em Seul, na Coreia do Sul, ressalvando que não poderia fazer uma declaração definitiva sobre o genocídio até que um tribunal ou um tribunal internacional credível provasse a evidência.

Respondendo a uma pergunta sobre um relatório divulgado pela Associated Press que detalha um massacre e a existência de pelo menos cinco valas comuns na aldeia de Gu Dar Pyin, em Myanmar Lee disse que, embora não tivesse detalhes específicos na aldeia, podia verificar-se que se tratava de “um padrão”, que surgiu na perseguição aos Rohingya.

Até hoje, quase 700 mil muçulmanos de origem rohingya fugiram das suas aldeias para o Bangladesh desde agosto devido à repressão dos militares birmaneses.

A comunidade internacional, sobretudo a ONU, tem exortado a líder do governo birmanês, Aung San Suu Kyi - que até foi Nobel da Paz em 1991 - , a terminar com as perseguições à minoria muçulmana, frequentemente descritas como uma “limpeza étnica”.

Myanmarv não reconhece a cidadania aos rohingya, que considera imigrantes bengalis, e sujeita-os a diferentes tipos de discriminação, incluindo restrições à liberdade de movimentos.