O ex-comandante das Falintil, braço armado da resistência timorense, Rogério Lobato, reconheceu hoje que na luta pela libertação de Timor-Leste "se cometeram alguns erros" e que o objetivo só foi alcançado pela união dos timorenses.

"Muitas vezes a revolução devora os seus próprios filhos", disse Rogério Lobato, numa conferência sobre o 40.º aniversário da fundação das Forças Armadas de Libertação de Timor-Leste (Falintil), um dos pilares da resistência timorense e da luta pela independência do país.
 

"Lutámos por defender o povo. Mas todos nós cometemos erros e, algumas vezes, nós próprios matámos os nossos irmãos. Temos que reconhecer isto. E espero que um dia os líderes da Fretilin possam falar sobre isso", disse.


A conferência de hoje insere-se nas atividades que desde a semana passada assinalam o 40.º aniversário das Falintil e cujo ponto alto será quinta-feira, com as comemorações oficiais em Taci Tolo, a oeste de Díli.

Criadas como braço armado da Fretilin (Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente), as Falintil começaram a marcar o seu papel na história timorense a 15 de agosto de 1975, altura em que foi lida, na localidade de Aisirimou, próximo de Aileu, a sul de Díli, a "Declaração de insurreição Armada".

Esse momento foi recordado esta semana com uma cerimónia de homenagem em que participaram os principais dirigentes timorenses.

Em 1987 as Falintil tornaram-se apartidárias e consolidaram-se como braço armado da resistência à ocupação indonésia.

Depois da independência de Timor-Leste, as Falintil transformaram-se nas Forças Defesa de Timor-Leste (F-FDTL) pelo que a cerimónia de 20 de agosto inclui uma parada militar, um minuto de silêncio e a condecoração, promoção e passagem à reforma de quadros das F-FDTL.

Na sua intervenção, Lobato recordou os momentos que se viveram aquando da fundação das Falintil, da captura dos soldados portugueses em Aileu e Díli, da guerra civil com a UDT e de outros membros da história do movimento pró-independência em Timor-Leste.

"Houve momentos bons, outros menos bons. Lutámos uns contra os outros. Algumas coisas foram resolvidas da forma incorreta. Não podemos aceitar que a revolução tenha morto os seus próprios filhos", recordou.
 

"Nós vencemos a luta. E agora temos que ser unidos, apesar das coisas que aconteceram, de modo a desenvolver este país. Temos que lutar por Timor, para que as crianças vivam num país melhor e não sofram o que nos sofremos", disse.


Na reta final da conquista da independência, disse, foi especialmente importante o papel da frente diplomática, destacando-se aqui "o papel e o apoio essencial de Portugal" e de figuras como Jorge Sampaio e Antonio Guterres.

"Esta foi uma luta coletiva, da frente armada, da frente clandestina, da frente diplomática, da igreja. Vencemos por causa da força coletiva", afirmou.
 

"E agora trabalhamos juntos, somos amigos. Não temos que pensar todos da mesma forma, mas podemos pensar todos no mesmo, o desenvolvimento do país", defendeu.


António da Conceição, ministro da Educação e moderador do debate, recordou a importância de momentos como este, porque "contar a história é muito importante, especialmente para a nova geração".

"Ajuda a continuar a cultivar o nosso nacionalismo, o nosso conhecimento como nação. Aqui não estamos num tribunal, estamos a juntar a informação, a ouvir a história", considerou.