Este podia ser o final da história: depois de 23 anos preso por um crime que não cometeu, Robert Jones voltou a ser um homem livre. Mas, Robert, americano condenado pelo homicídio da britânica Julie Scott em 1992 e pela violação de uma outra mulher, ainda não se sente um homem livre. Ele luta agora para se livrar da dúvida e quis mesmo submeter-se a testes de ADN para provar que não violou ninguém, mas as provas da violação perderam-se e não há como provar isso. 

Robert Jones espalha a palavra, pede que acreditem na sua palavra, a inocência que ele proclamou durante mais de vinte anos e que quase lhe valeu a morte.

Um trabalho de investigação da BBC, levado a cabo pelo jornalista Aleem Maqbool, descreve alguns dos episódios do pesadelo vivido por um homem durante mais de metade da sua vida, mais de metade dela passada atrás das grades.
   

A noite em que uma britânica morreu num rua de Nova Orleães


A 14 de abril de 1992, a viagem de sonho de um jovem casal britânico aos Estados Unidos, acabou de forma trágica. 

Depois de um jantar, o casal foi abordado por um homem numa rua de Nova Orleães. O homem apontou-lhes uma arma e feriu primeiro Peter Ellis. O pânico que tomou conta de Jullie Scott acabou por lhe ser fatal. A jovem tentou fugir e foi baleada também.

 O agressor acabou por se colocar em fuga, enquanto Peter tentava salvar, em vão, a noiva, atingida na cabeça.
James Stewart foi o inspector da polícia que tomou conta do homicídio, mas perdeu-lhe o fio. Mais de vinte anos depois, o agora agente do FBI reconheceu a pressão da comunicação social na condução do caso. Numa altura em que os assaltos a turistas lançavam um clima de insegurança em várias cidades daquele país, o que Stewart não previa era a influência dos media britânicos.

Os tabloides ingleses fizeram manchetes com o homicídio de Jullie Scott e o The Sun chegou mesmo a noticiar uma recompensa por informações sobre o assassino, que levou a uma inundação de telefonemas na polícia de Nova Orleães.

Num desses telefonemas é feita menção a um grupo de homens que estaria na rua nessa noite. Entre eles estava Robert Jones, de 19 anos, sem antecedentes criminais, mas já referenciado pela polícia.

Tudo apontava que o homicídio de Jullie Scott fora consequência de um assalto mal sucedido. Outro casal estrangeiro também havia sido assaltado nessa noite e, uma semana antes, uma mulher fora assaltada, agredida e violada.

Confrontada com várias fotos, essa mulher veio a inclinar-se para a fotografia de Robert Jones como o hipotético criminoso que a atacara. Daí, foi um passo até que a polícia bateu à porta de Jones, de madrugada. Robert Jones vivia com a namorada, de 17 anos, os dois filhos pequenos, a mãe e mais cinco irmãos. Foi levado para a esquadra, para não voltar mais a casa.

Os jornais britânicos faziam, pouco depois, manchetes com a fotografia de Jones e, inclusive, chamavam-lhe “besta”. O presidente da Câmara de Nova Orleães mostrava-se satisfeito, na televisão, pela segurança de regresso às ruas da sua cidade.

Seis dias depois da morte de Jullie Scott, outro casal, abordado pelo mesmo modus operandi, foi assaltado em Nova Orleães. O assaltante fugiu num carro idêntido ao dos outros roubos. A polícia sabia que tinha detido o homem errado. Encontrado o carro, foi descoberto o seu dono. Lester Jones, sem qualquer relação com Robert Jones, e identificado por muitas vítimas como o o assaltante. As provas também não faltavam, já que muitos dos objetos roubados estavam na posse de Lester Jones.


Muito mais do que uma questão de apelido? Dois Jones condenados pelo mesmo crime


Lester Jones foi condenado, mas Robert Jones não foi libertado. Duas pessoas que não se cruzaram, mas as suas histórias de vida continuaram, surpreendentemente, entrelaçadas.

Em 1996, Robert Jones foi a julgamento pela morte de Jullie Scott, pela violação de uma mulher e por alguns dos roubos perpetrados por Lester Jones, ignorando o tribinal que o outro Jones já tinha sido condenado por esses crimes A acusação tinha a tese de que Lester emprestara o carro a Robert.

Em menos de dez horas de julgamento, Robert Jones foi considerado culpado por um juri norte-americano e acabou por se declarar culpado para que a condenação baixasse de violação para abuso e, assim, evitar o “corredor da morte”.

O inspetor James Stewart só veio a descobrir, em 2013, que Robert Jones tinha sido também condenado pela morte da jovem britânica. Os pais de Jullie Scott nunca souberam que um segundo homem foi condenado pelo homicídio da filha.

Numa análise ao caso, feita pelo juiz reformado de Nova Orleães, Calvin Johnson, e que conduziu o julgamento de Robert Jones, o afro-americano confessou que o “maior crime” de Robert Jones terá sido, provavelmente, a cor da pele, segundo disse ao repórter da BBC. O juiz disse que o entendimento, na altura, era:

"Se não é responsável por este ato, é por outros, pelo que justifica ser condenado". 


Robert Jones, negro, como a maioria dos homens detidos na prisão onde passou anos de vida, erguida numa antiga fazenda cultivada por escravos.

Quando foi trazido a público um documento de um dos procuradores do Ministério Público, onde escrevia que não encontrava relação entre os dois homens, Robert e Lester Jones, era a sentença de vida de Robert que vinha a público. O Supremo Tribunal do Luisiana considerou que Robert Jones não tivera direito a um julgamento isento. Jones foi libertado e com direito a indemnização.

À sua espera estava a mãe e a filha, nascida oito meses depois do pai ter sido preso. Bree Jones ofereceu ao pai um smartphone. Quando Robert Jones foi preso, a Internet ainda não existia praticamente.

Como é que alguém aguenta tantos anos preso sem ser culpado? Robert Jones disse que “nunca perdera a fé em Deus”.