A história uniu um país e comoveu o mundo. No meio da destruição causada pelo sismo do México, como que por milagre, uma criança tinha sobrevivido e estava presa nos escombros. Frida Sofía era o nome que, de repente, estava em toda a parte. Durante dois dias, as equipas de socorro reuniram esforços para salvar a menina. Durante dois dias, o resgate foi transmitido em direto pelas maiores televisões do país e seguido a par e passo pelos mexicanos. Durante dois dias, Frida Sofía transportou a força e a esperança de um povo. No final, houve o choque e a fúria: afinal, Frida Sofía nunca existiu.

A notícia surgiu nas ruínas do colégio Enrique Rébsamen, onde dezenas de alunos morreram após o forte sismo. Oficiais da marinha no local disseram que havia uma menina de 12 anos viva entre os destroços. Mais, disseram que a criança, que lhes tinha erguido o braço, chamava-se Frida Sofía e estava em contacto com outros colegas da escola. A notícia gerou um grande impacto mediático e depressa Frida Sofía estava em todo o lado: na televisão, nos jornais, nas redes sociais.

O mistério em torno de Frida Sofía começou quando responsáveis da escola fizeram saber que não havia registo de nenhum aluno com esse nome. E adensou-se porque também não havia ninguém a procurar uma criança com esse nome.   

Ainda assim, os mexicanos tinham razões para acreditar que havia mesmo uma menina viva entre as ruínas do colégio, uma vez que essa era a informação dada pelos próprios oficiais. 

Horas depois de um oficial da marinha ter dito ao El Financiero TV que os operacionais estavam em contacto permanente com a criança e que o resgate estava muito perto de acontecer, um comunicado do secretário da Marinha, Enrique Sarmiento, deitou por terra toda a história. O responsável anunciou, ao final desta quinta-feira, que todos os corpos dos alunos do colégio tinham sido encontrados e que Frida Sofía não existia.

“Queremos sublinhar que estamos a par do relato que surgiu sobre uma menina. Estamos certos de que não é uma realidade.”

A Secretaria da Marinha pediu desculpa pela confusão mediática gerada pelas informações sobre sobreviventes, mas já nada conseguia impedir o que se seguiu depois: o choque e a fúria dos mexicanos, que se sentiam enganados pela imprensa. 

Os próprios repórteres, porém, também se mostravam indignados. Carlos Loret de Mola, pivot da Televisa, a maior cadeia de televisão mexicana, expressou isso mesmo no Twitter.

Frida Sofía não é caso inédito no México, que ainda recorda Monchito, o menino fantasma do grande sismo que ocorreu em 1985. Após esse forte abalo que provocou milhares de mortos, as atenções concentraram-se no resgate de um rapaz de nove anos, que também nunca existiu.

O número de mortos provocados pelo forte sismo que sacudiu o México na terça-feira já vai em 286. As autoridades continuam à procura de sobreviventes.