Se me candidatasse à Casa Branca, fazia-o pelos republicanos. São o grupo de votantes mais ignorante que conheço no país. Acreditam em tudo o que se diz na Fox News. Poderia mentir e eles comiam aquilo na mesma. Aposto que os meus números seriam fantásticos", DONALD TRUMP (sim, ele mesmo), entrevista à People Magazine, 1998.

 

Pus baton num porco. Arrependo-me profundamente disso", TONY SCHWARTZ, autor do livro «The Art of The Deal», sobre o sucesso empresarial de Donald Trump.

 

Somos melhores do que isto", HILLARY CLINTON, presumível nomeada presidencial democrata, reagindo ao discurso de aceitação de Donald Trump.

 

Aqueles que me estiverem a ouvir, por favor, não fiquem em casa em novembro. Se amam o vosso país e amam os vossos filhos tanto como sei que amam, ajam e falem, e votem em consciência em candidatos em que confiem para defender a Liberdade e a fé na nossa Constituição", TED CRUZ, senador do Texas, segundo classificado nas primárias republicanas, na Convenção de Cleveland, em discurso em que se recusou a apoiar Trump, terminando sob forte pateada da assistência fiel a Donald

 

Não foi propriamente uma «Convenção Republicana», aquilo a que se assistiu nos últimos quatro dias em Cleveland, Ohio, em pleno estado do Midwest, um dos quatro ou cinco mais influentes para a eleição geral (a par da Florida e um pouco mais importante ainda do que a Pensilvânia, a Virgínia ou o Wisconsin).

Foi mais a coroação em forma de espetáculo – ou não fosse o nomeado um produto da exposição televisiva de programas do estilo «The Apprentice» -- de um candidato com um estilo demagógico, populista e baseado num carisma pessoal com traços ditatoriais, que em nada de inscreve na tradição do velho Partido Republicano.

A investidura de Donald Trump é um dos pontos mais baixos (provavelmente, o mais baixo até) da alta política americana.

Sinaliza um desconforto claro de uma boa parte do eleitorado em relação do sistema de poder e às regras, tantas vezes disfuncionais, que têm marcado o estilo de governação em Washington.

É uma vergonha para o Partido Republicano. Para a sua história e para a elite que o tem dominado. Um falhanço rotundo para candidatos que tinham tudo para ser viáveis (muito dinheiro incluído…), como Jeb Bush ou Marco Rubio.

Mas é, também, um aviso sério a todo o sistema político americano – democratas incluídos.

A coragem de Ted Cruz

Ted Cruz, segundo classificado nas primárias, tinha uma espécie de «wild card»: se apresentasse, de surpresa, o seu apoio a Donald Trump nesta convenção, poderia ajudar os republicanos a uma união de última hora.

Mas não foi nada disso que aconteceu.

Num ato muito corajoso, Ted enfrentou um coro de assobios e deixou bem claro, no palco da Quicken Loans Arena, que não só não apoia Donald como apela aos americanos a que "votem em consciência".

Saiu pateado, a mulher precisou de escolta para abandonar o recinto – mas pode ter marcado pontos importante para ser o nomeado presidencial republicano em 2020, caso se confirme a derrota de Donald a 8 de novembro.

Oportunidade para Hillary

Confirmada que foi a nomeação presidencial de Donald Trump, pende, nos próximos 109 dias, uma responsabilidade tremenda sobre os ombros de Hillary Clinton: essa mesmo, a de evitar o inimaginável, uma Presidência Donald Trump.

A futura nomeada do Partido Democrata (será confirmada na próxima semana na Convenção de Filadélfia, na Pensilvânia, outro estado chave para a eleição geral) parece já ter obtido uma plataforma política com Bernie Sanders e ala esquerda do partido, mas a unidade do campo democrata pode não ser suficiente nesta eleição tão atípica.

O "circo de horrores" em que se transformou a Convenção de Cleveland pôs a nu a divisão insanável em que caiu a Direita americana.

E isso é, obviamente, uma oportunidade para a candidatura de Hillary, que poderá captar uma fatia de 10 a 15% de eleitores republicanos, atendendo ao que se passou na Convenção.

Questão de família

Trump fez da sua própria convenção um assunto de família.

O protagonismo maior foi para Melania, a terceira mulher, que logo ao primeiro dia lançou a polémica ao plagiar excertos do discurso de Michelle Obama na Convenção Democrata de 2008; a Ivanka, a filha de 34 anos, fruto da relação com Ivana, que apresentou o pai ao terceiro dia; do filho Donald Jr., de 38 anos, que se mostrou, na verdade, mais bem preparado e esclarecido do que o próprio pai-candidato.

Basta fazer um esforço de memória para concluir que houve uma tremenda ausência de figuras principais nesta convenção, comparando com conclaves anteriores dos republicanos.

Faltaram os Bush (George HW e George W, os dois únicos presidentes republicanos vivos), faltou Romney, faltou McCain (os dois últimos nomeados presidenciais republicanos), faltaram os Paul (Ron e Rand).

Vimos um Giuliani zangado e estranhamente agressivo, a capitalizar a carta do «efeito securitário» e a comparar abusivamente Trump e Reagan; um Scott Walker a tentar aproveitar a falta de primeiras linhas para tomar o palco (ele que desistiu precocemente das primárias, quase em forma de protesto pela atenção excessiva que já era dada a Trump…); um Chris Christie a tentar minimizar danos, assumindo-se como o «cão de ataque» contra Hillary Clinton, quase a exigir a prisão da futura nomeada democrata.

Perdeu-se o centro, perdeu-se o discernimento, despareceu a moderação do discurso político republicano, a avaliar pelo tom e pelo registo (quase sempre ressentido, às vezes violento até) que se viveu na Convenção de Cleveland.

Prevaleceu uma via populista, simplista, com generalizações perigosas, que associou perversamente o crime aos refugiados e à imigração, sem qualquer respeito pela verdade ou preocupação com o rigor estatístico (Trump prometeu «aumentar a segurança nos lares e nas ruas da América», sendo que o crime contra pessoas e contra a propriedade tem descido, de forma sustentada e ininterrupta nos últimos anos; prometeu aumentar o dispositivo policial, sendo que os efectivos de segurança aumentaram 8% na era Obama…)

O lado «dark» da América

O discurso de aceitação de Donald Trump teve até um ‘canto de sereia’, com o aceno à comunidade LGBT – certamente para disfarçar o registo esse sim real de Donald contra as minorias sexuais e tentando, talvez, insinuar que perante a «ameaça islâmica», o Presidente Trump defenderia essas minorias da visão intolerante de alguns muçulmanos radicais contra os homossexuais.

Mas esse ponto pouco mais foi do que um «fait divers» no discurso de Trump.

Donald insistiu na tecla securitária, na crítica à «desonesta Hillary» e na ameaça do ISIS, que "Obama e Hillary foram incapazes de suster".

Prometeu mais segurança, travar os imigrantes ilegais, fechar fronteiras. Desenhou uma América protecionista, em claro contraponto com a visão de distensão, abertura e multilateralismo que marcaram os anos Obama/Hillary/Kerry, na Casa Branca e no Departamento de Estado.

Uma narrativa "dark", por vezes assustadora, que pintou uma América bem pior do que ela realmente é e que anunciou um quadro económico e social mais crítico do que, verdadeiramente, existe.

Em política, e sobretudo na ato por vezes mais emocional do que racional de votar, as perceções contam mais do que a realidade.

A estratégia do medo resultou nas primárias. Mas… será que vai dar hipóteses reais a Donald Trump de derrotar Hillary Clinton na eleição geral?

 

*Jornalista, autor dos livros «Histórias da Casa Branca» e «Por Dentro da Reeleição»