Os cerca de 20 portugueses residentes na República Centro-Africana, onde o presidente e o primeiro-ministro pediram esta sexta-feira a demissão, estão «fora de perigo» e não pediram ainda para sair do país, disse à Lusa o cônsul honorário.

O presidente de transição da República Centro-Africana, Michel Djotodia, e o seu primeiro-ministro, Nicolas Tiangaye, apresentaram a demissão, anunciaram esta sexta-feira os participantes da cimeira extraordinária da África Central em N'Djamena.

Contactado pela Lusa, o cônsul honorário naquele país, José Pereira de Sousa, relatou que «nenhum dos portugueses está em perigo», apesar de a tensão que se vive na República Centro-Africana.

A comunidade portuguesa é composta por cerca de 20 portugueses, oriundos de Portugal, existindo depois alguns cidadãos com dupla nacionalidade - portuguesa e centro-africana - que trabalham, sobretudo, no comércio e nos negócios ligados aos diamantes e à madeira.

Em declarações à Lusa, o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Cesário, referiu que o Governo está «bastante preocupado» com a situação dos portugueses, recordando que «já por várias vezes» emitiu recomendações para que abandonassem a República Centro-Africana.

«O problema é a insegurança permanente, a situação é muito frágil e delicada», disse.

Naquele país, os cidadãos europeus contam com o apoio da embaixada francesa, mas, garantiu o cônsul, «em nenhuma reunião» que manteve com as autoridades francesas foi abordada a possibilidade de retirada de portugueses.

Pereira de Sousa relatou que a demissão do presidente era reclamada no país, onde recolheu «muito ódio, porque as coisas não estão bem, o país está completamente parado», e pelos países vizinhos e, como tal, «era esperada e temida».

O cônsul honorário, que vive na capital, Bangui, relatou que, aquando da notícia do pedido de demissão, «houve manifestações de regozijo, sobretudo nos bairros periféricos», mas também disse que «a tensão e o pânico» aumentaram.

«Houve aqui dois ou três tiros e as pessoas começaram todas a correr e rapidamente o centro da cidade ficou deserto», referiu, acrescentando que a situação ficou entretanto mais calma.

Um dos receios da população é que regressem os militares da Séléka, afetos ao presidente demissionário, que entretanto fugiram para o Chade.

Com 4,5 milhões de habitantes, a República Centro-Africana, um país pobre, mas rico em recursos, mergulhou no caos desde o golpe de Estado de março passado, organizado pela coligação rebelde Séléka, que afastou do poder o presidente François Bozizé e declarou Michel Djotodia como novo presidente do país.

A 5 de dezembro, as milícias de autodefesa cristãs, denominadas como «anti-balaka »e que até então atuavam sobretudo no Oeste do país, lançaram uma ofensiva na capital, Bangui, contra posições da Séléka e em bairros muçulmanos. O ataque provocou represálias dos ex-rebeldes contra a população maioritariamente cristã de Bangui.

Um total de 1.600 soldados franceses e cerca de 4.000 soldados africanos estão a tentar restabelecer a ordem e restaurar a segurança na antiga colónia francesa.