O líder da Renamo, Afonso Dhlakama, apelou hoje à intervenção de organizações humanitárias para alívio da fome na Gorongosa, Sofala, centro de Moçambique, onde milhares de pessoas recorrem a mangas e tubérculos silvestres, para suprir falta de comida.

O líder da Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), maior partido da oposição em Moçambique, pediu alimentos, medicamentos e roupa para apoiar dez mil pessoas a braços com fome crónica, em várias regiões do interior de Gorongosa.

«Quero apelar ao Comité Internacional da Cruz Vermelha, para que intervenha com comida e medicamentos para os deslocados. Há crianças que foram separadas dos pais, quando foram forçados a fugir da guerra e precisam de assistência médica», disse Afonso Dhlakama, que falava na abertura do Conselho Nacional Político do seu partido, que reúne, hoje e amanhã, em Gorongosa, tradicional bastião militar e político da Renamo.


Calcula-se que 10 mil pessoas, de cinco regiões do interior de Gorongosa, estejam a atravessar uma crónica situação de fome, na sequência da fraca produção agrícola, devido a tensão político-militar - que opôs, durante 17 meses, forças do Governo e o braço armado da oposição.

Milhares de pessoas, a maioria camponeses, deixaram as zonas do interior de Gorongosa, considerado o «celeiro de Sofala», em outubro de 2013, numa época crucial para a agricultura de sequeiro, fugindo dos confrontos militares na região, que terminaram com o acordo de cessação de hostilidades entre o Governo e o líder da Renamo, a 05 de setembro.

A população está a alimentar-se de mangas verdes, misturadas em papas, com sal, e raras vezes açúcar, enquanto as maduras apenas servem de sobremesa.

Os habitantes locais estão também a recorrer a tubérculos silvestres (Munhanha, Ndia, Nhamufo, Ngó), alguns deles venenosos, que são mergulhados em água durante 24 horas, para se atenuar a perigosidade, sendo depois secos ao sol e moídos num pilão.

«Quero apelar a todo o tipo de apoio, sobretudo da Cruz Vermelha Internacional», precisou Afonso Dhlakama, que se emocionou com a situação da população local, que considera ter aceitado sacrifícios para a libertação do país.

«Tornei-me líder forte através da população de Gorongosa», precisou Afonso Dhlakama, que elogiou a entrega da população, quer na guerra de 16 anos, quer no recém-terminado conflito político-militar de 17 meses.

«Após a morte de André Matsangaisse [fundador da Renamo], em 1979, tornei-me, aos 22 anos, líder [da Renamo] e permaneci na Gorongosa. Hoje viemos mostrar que já somos grandes e fortes, porque a população aceitou sacrifícios, por isso me dói saber que passa fome», concluiu o líder da Renamo, presente desde sábado na região de Gorongosa.