Mais de 450 pacientes de um hospital público inglês morreram de overdose, depois de lhes ter sido administrado, sem necessidade, um opióide forte, de acordo com a investigação, liderada pelo antigo bispo de Inglaterra, James Jones, que também teve em mãos o relatório sobre a tragédia de Hillsborough.

Segundo o relatório, divulgado nesta quarta-feira, nenhum destes doentes do Gosport War Memorial Hospital, em Hampshire, necessitava de tomar diamorfina, ou seja, o termo médico para heroína.

Os factos remontam à década de 90 e, para já, há apenas um nome em cima da mesa: a médica Jane Barton, responsável pelas enfermarias, que prescrevia as drogas. No entanto, de acordo com a investigação, todos sabiam desta administração indevida de heroína, desde os enfermeiros às chefias médicas, sem que nunca tenham agido contra.

As vítimas são na maioria idosos, muitos deles saudáveis ou sem dores, que se deslocavam ao hospital na sequência de uma anca partida, por exemplo. Havia casos mais graves, de doentes com cancro, mas nem nestes casos a administração daquela droga era adequada ou necessária.

Mas todos eles, independentemente da sua condição, tinham a mesma prescrição: heroína por via intravenosa.

A primeira denúncia surgiu em 1988, depois de a filha de uma paciente ter apresentado queixa na polícia de Hampshire devido ao uso indevido de morfina.

Três anos depois, na sequência de uma reunião com a ordem dos enfermeiros, estes profissionais foram aconselhados a não levar as suas preocupações mais longe.

Ao escolherem não fazê-lo, a oportunidade perdeu-se, aconteceram mortes e, 22 anos depois, tornou-se necessário criar esta comissão para descobrir a verdade”, consta no relatório hoje conhecido.

De acordo com a investigação, as enfermeiras nunca questionaram as ordens da médica Jane Barton, que ali trabalhou durante 12 anos.

As suspeitas só não caíram no esquecimento devido à “tenacidade” das famílias das vítimas, que nunca deixaram de questionar o que aconteceu.

A investigação aponta, por isso, o dedo às autoridades, de saúde e policiais, como a ordem dos médicos, que, apesar de censurar Jane Barton pelas suas práticas, numa audição em 2009, já depois de o nome da clínica ter sido visado nas investigações da polícia, não a impediu de continuar a exercer.

Para as conclusões agora conhecidas contribuiu o testemunho de uma enfermeira, Pauline Spilka, que já tinha denunciado a situação em 2001 durante as primeiras investigações policiais. Esta profissional afirmou não se lembrar de um único paciente que tenha sobrevivido à administração permanente da droga.

O inquérito às mortes no Gosport teve início em julho de 2014, a pedido do governo britânico, que nomeou James Jones, antigo bispo de Inglaterra e também de Liverpool, para liderar a investigação, ele que já tinha trabalhado no relatório à tragédia de Hillsborough, em que morreram 96 pessoas no estádio.