A primeira-britânica, Theresa May, concordou secretamente em duplicar a “fatura de saída” do Reino Unido da União Europeia (UE) para 40 mil milhões de euros, na tentativa de fazer avançar as negociações sobre um futuro acordo de comércio.

De acordo com o site Business Insider, a chefe do Governo britânico já concordou em pagar a contribuição completa do país no atual quadro orçamental, no valor de cerca de 20 mil milhões de euros, mas poderá vir a pagar o dobro desse montante.

O presidente do Parlamento Europeu, Antonio Tajani, disse esta semana que os 20 mil milhões de euros que o Reino Unido estava disposto a pagar não passavam de “amendoins”, com a Alemanha, entre outros países, a recusar-se a permitir que as negociações sobre um futuro acordo comercial comecem até que a Grã-Bretanha indique que concordará em pagar pelo menos o dobro.

Embora o Reino Unido não tenha assumido nenhum compromisso oficial para pagar o dinheiro extra, a primeira-ministra terá assegurado confidencialmente aos líderes da UE que a Grã-Bretanha concordará em pagar se as negociações para relações comerciais futuras avançarem.

Também o jornal The Times escreve que, nas discussões com um grupo selecionado de líderes europeus nas últimas duas semanas, Theresa May foi além do discurso de Florença e garantiu que a Grã-Bretanha pretende honrar os compromissos orçamentais com a UE a longo prazo. A líder do Governo britânico estaria assim disposta a pagar passivos futuros - o que equivale a uma quantia adicional de 20 mil milhões de euros - que seriam aceitáveis para a maioria dos governos europeus.

Esta sexta-feira de manhã, numa conferência de imprensa em Bruxelas, após o final da primeira sessão de trabalhos do Conselho Europeu, que hoje termina, Theresa May não confirmou, mas também não negou ter dito a outros líderes europeus que o Reino Unido poderia pagar “muitos mais milhões” do que os 20 mil que indicou em setembro, na cidade italiana de Florença, com vista a quebrar o impasse no andamento do Brexit.

De acordo com a BBC, sobre a chamada “fatura de saída”, May disse esta sexta-feira de manhã aos jornalistas que o acerto de contas completo será integrado num acordo final sobre a futura parceria com a UE.

No atual quadro orçamental, ninguém deve estar preocupado, no que respeita aos compromissos, estamos a analisá-los linha a linha", adiantou.

 

Até dezembro [data da próxima cimeira europeia], vamos trabalhar nos temas em que estamos perto de um acordo", acrescentou.

A primeira-ministra britânica reconheceu que há ainda "caminho a percorrer" nas negociações do Brexit, mas disse-se otimista no que respeita a conseguir um "bom acordo" pós-divórcio.

A cooperação entre o Reino Unido e a União Europeia não acaba em março de 2019", sublinhou.

"Estou otimista no que respeita a chegarmos a um bom acordo e os restantes líderes europeus também acreditam que é possível", realçou.

Acordo para direitos dos europeus "está perto"

No que respeita à proteção dos direitos dos cidadãos europeus residentes no Reino Unido, a primeira-ministra britânica salientou acreditar estar "perto de um acordo" com a UE que beneficie as duas partes.

"Fui clara, ao longo deste processo, de que os direitos dos cidadãos são a minha primeira prioridade. E eu sei que os meus colegas líderes têm o mesmo objetivo: salvaguardar os direitos dos cidadãos da UE que vivem no Reino Unido e cidadãos do Reino Unido que vivem na UE", afirmou.

Sobre a acusação de que está a usar os cidadãos europeus como moeda de troca nas negociações, Theresa May defendeu que "nada poderia estar mais longe da verdade".

Os cidadãos europeus que construíram a sua vida no Reino Unido deram um enorme contributo para o nosso país e, aconteça o que acontecer, queremos que eles e as suas famílias fiquem.Eu não poderia ser mais clara: os cidadãos da UE que vivem legalmente no Reino Unido hoje poderão ficar", afirmou.

Theresa May revelou que o processo de candidatura à autorização de residência vai ser mais simples, se exigir seguro de saúde a quem não trabalhou, que vai ter um custo baixo e que será automático para quem já tem o certificado de residência.

"Espero que estas garantias, juntamente com as feitas pelo Reino Unido e pela Comissão Europeia na semana passada, proporcionem mais segurança aos quatro milhões de pessoas que estão compreensivelmente preocupados com o que Brexit significaria para seu futuro", concluiu.

Os líderes europeus, reunidos em Bruxelas, na Bélgica, deram esta sexta-feira “luz verde” aos preparativos internos da UE a 27 para a passagem à segunda fase das negociações do Brexit em dezembro, caso sejam alcançados os progressos suficientes nos próximos dois meses.

Negociações "aquém das expetativas" 

O primeiro-ministro, António Costa, considerou esta sexta-feira que as negociações entre a UE e o Reino Unido sobre o Brexit estão “aquém das expectativas muito positivas”.

No Conselho, foi feito o ponto de situação sobre as negociações com o Reino Unido sobre o Brexit e infelizmente, este regista que estamos muito aquém das expetativas muito positivas que tinham sido geradas a partir da intervenção da senhora May recentemente em Florença”, disse o primeiro-ministro.

De acordo com a agência Lusa, Costa adiantou que “no dossiê financeiro, mas sobretudo no que diz respeito aos direitos das pessoas”, o processo está “bastante atrasado”.

A este respeito, há dois pontos para nós particularmente críticos: um, que tem a ver com a reunião familiar e outro, sobre a portabilidade dos direitos sociais”, indicou.

“Esta é a má notícia que tivemos neste conselho, mas tenho esperança de que, nas próximas semanas, seja possível que os negociadores britânicos se aproximem do elevado nível de expetativas que o discurso da senhora May abriu”, afirmou.

As declarações do primeiro-ministro contrastam com o otimismo expresso pelo presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, que disse também esta sexta-feira, em conferência de imprensa, que os progressos, ainda que insuficientes, nas negociações permitiram que a UE comece a preparar a entrada na fase seguinte, marcando uma decisão para dezembro.