A juíza neozelandesa Lowell Goddard, uma das mais respeitadas e experientes da Commonwealth, anda nas bocas dos britânicos, depois de abandonar o megaprocesso de abuso sexual de menores que liderava há pouco mais de um ano no Reino Unido.

É a terceira mulher a fazê-lo, desta feita uma outsider, depois de duas britânicas, Elizabeth Butler-Sloss e Fiona Woolf, apresentarem a demissão na sequência de ligações familiares e pessoais à investigação.

Lowell Goddard alega ter recebido uma “herança de erros” que não conseguiu ultrapassar, mas demitiu-se um dia depois, na tarde de quinta-feira, depois de ter sido acusada de gozar três meses de férias no exterior, nos seus primeiros 12 meses de processo, que assumiu em abril de 2015.

Um cargo altamente remunerado, com um salário base de cerca de 430 mil euros anuais e muitos outros milhares em regalias, como renda, carro, motorista, 14 mil euros para despesas e mais de 65 mil euros em viagens de avião para o marido e filhos entre a Nova Zelândia e o Reino Unido.

Este megaprocesso, aberto em 2014 por Theresa May, que sucedeu a David Cameron na liderança do Reino Unido após a vitória do Brexit em consulta popular, investiga décadas de abusos sexuais de menores.

Na sua carta de demissão, divulgada na imprensa, Lowell Goddard é acusada de colocar em causa o processo, ao escrever que os desafios colocados pela investigação são “intransponíveis”. No entanto, o Governo veio já publicamente afirmar que continua determinado a prosseguir um inquérito que considera uma “prioridade”.

Desde o início do megaprocesso que não houve qualquer recolha de prova e só recentemente iniciou o processo de catalogação dos testemunhos das vítimas.

Também só recentemente Lowell Goddard tinha iniciado as audições preliminares em 13 outras investigações paralelas e relacionadas com este processo de abuso de menores.

A notícia do Times de que a juíza gozou três meses de férias terá sido a gota de água.

O jornal escreveu que a juíza neozelandesa passou 74 dias, incluindo os 30 a que tem direito anualmente, no seu país e na Austrália.

Uma acusação refutada por Goddard, que alegou que durante 44 dias esteve a trabalhar na investigação, ainda que fora do Reino Unido.

Outra crítica que pende sobre a magistrada assenta no facto de não ter dado voz às vítimas.

Este megaprocesso aberto em julho de 2014 após denúncias de uma rede pedófila a operar em Westminster na década de 80 e que envolveria instituições públicas e privadas, bem como figuras proeminentes da sociedade e da classe política.