Os britânicos são chamados às urnas esta quinta-feira para decidir se querem ou não permanecer na União Europeia, naquele que será mais um momento decisivo na história de uma relação conturbada entre o Reino Unido e a comunidade europeia. As sondagens, que mostram um país dividido, não permitem antecipar um resultado. E a juntar a isto há um acontecimento que abalou o país nos últimos dias e que pode influenciar as intenções de voto: o homicídio da deputada europeísta e pró-imigração Jo Cox. O que está em jogo é mais do que o futuro do Reino Unido. É o futuro do próprio projeto europeu, como o conhecemos.  

"Should the United Kingdom remain a member of the European Union or leave the European Union?" ("Deve o Reino Unido permanecer como membro da União Europeia ou deixar a União Europeia?”).

Esta é a pergunta a que os britânicos têm de responder esta quinta-feira e, a verdade, é que está tudo em aberto. Apesar de as últimas sondagens, divulgadas esta semana, mostrarem uma tendência a favor da permanência na União Europeia, os especialistas não arriscam um resultado.

Isto porque, ainda na semana passada, as sondagens tinham mostrado precisamente o contrário: uma vantagem a favor da saída.

A reviravolta verificada em tão pouco tempo estará diretamente relacionada com o homicídio da deputada Jo Cox, que fazia campanha pela permanência. Assassinada em plena rua por um nacionalista suspeito de estar ligado a grupos neonazis, o crime emocionou o país e poderá ser um elemento crucial na hora de todas as decisões, influenciando o voto dos indecisos. E os indecisos são muitos.

Nos últimos dias, o Reino Unido foi um país partido em dois: de um lado o “remain” (ficar), do outro o “leave” (sair). Partidos, políticos, agentes económicos, personalidades dos mais diferentes quadrantes da sociedade britânica reuniram esforços nos últimos dias pelas campanhas.

Uma eventual saída dos britânicos tem assombrado a agenda política europeia e a comunidade internacional olha com preocupação para esta possibilidade. Os mais pessimistas falam mesmo no princípio da desintegração europeia e destacam a imprevisibilidade das consequências que o acontecimento pode originar. Os mais otimistas defendem que a UE irá sobreviver, ainda que o "Brexit" possa trazer mazelas.

O referendo que se realiza nesta quinta-feira foi uma promessa eleitoral do primeiro-ministro. Cameron afirmou, em janeiro de 2013, que caso fosse reeleito iria renegociar os termos da participação do país na comunidade e prometeu uma consulta popular sobre esta matéria. E foi logo no discurso de vitória das eleições de 2015, que garantiu a concretização desta promessa.

A ideia do "Brexit" começou então a agitar o velho continente. Ainda que os responsáveis europeus tenham conseguido um acordo com Downing Street para satisfazer as exigências do líder conservador, o referendo acabou mesmo por avançar.

Os prós e os contras

As forças políticas eurocéticas são as que lideram a campanha pelo "Brexit", com o UKIP (partido independentista britânico) em destaque. O partido de Nigel Farage que, importa lembrar, conseguiu quase 13% dos votos (quatro milhões de votos) nas eleições do ano passado.

Mas Farage não está sozinho. Cerca de metade dos deputados do Partido Conservador também apoiam a saída da UE. E se David Cameron tem apelado ao voto pela permanência, há cinco ministros do seu governo que têm feito o contrário. O titular da pasta da Justiça, Michael Gove, tem sido um dos rostos mais visíveis da campanha pela saída.

Há ainda outra figura de peso nesta campanha: Boris Johnson, ex-presidente da Câmara de Londres, que tem sido apontado como sucessor de Cameron na liderança do Partido Conservador.

Os argumentos usados a favor do Brexit prendem-se essencialmente com questões de ordem económica e com a imigração e o controlo de fronteiras. Aqui, defende-se que os britânicos enviam mais dinheiro para os cofres comunitários do que aquele que recebem e, numa altura em que a Europa se vê a braços com uma crise de refugiados sem precedentes, pretende-se um controlo mais apertado da imigração no país.  

Do outro lado, que é como quem diz a favor da permanência, estão os trabalhistas, os liberais-democratas e os nacionalistas escoceses e galeses. E os líderes das principais empresas britânicas.

Os empresários, de resto, fizeram um apelo nesta quarta-feira pela permanência em nome do emprego e do comércio. Numa carta aberta divulgada pelo The Times, os responsáveis de mais de metade das grandes empresas britânicas cotadas na Bolsa de Londres – 1.250 empresários que, em conjunto, dão emprego a 1,75 milhões de pessoas – argumentam que a opção pelo "Brexit" prejudicaria a economia britânica.

Também a comunidade internacional tem feito vários apelos ao voto pela permanência, desde os mais importantes líderes europeus, como a chanceler alemã Angela Merkel, aos governantes que se encontram do outro lado do Atlântico, como Barack Obama.

As consequências de algo que nunca aconteceu

Caso o "Brexit" vença o referendo, o Reino Unido torna-se o primeiro país a abandonar a UE. Ora, como se trata de um acontecimento inédito, os especialistas fazem questão de destacar a imprevisibilidade das suas consequências.

Em termos económicos, os analistas prevêem que a instabilidade do "Brexit" pode levar à desvalorização da libra, à inflação, a um aumento das taxas de juro e a uma quebra no crescimento da economia.

Quanto à questão da imigração, à partida, os imigrantes que já estão no país não serão afetados - pelo menos é isto que argumentam os que defendem a saída -, mas os novos imigrantes deverão ter mais dificuldades em conseguir vistos.

Certo é que, neste cenário, e de acordo com os tratados europeus, os britânicos têm um prazo de dois anos para negociar a saída. E durante este processo, têm de estabelecer novos acordos comerciais e novas regras de imigração.

Esta quinta-feira é um dia decisivo. Não só para o futuro do Reino Unido, como para o futuro do projeto europeu.