O Reino Unido vai sair da União Europeia. Nada será feito para o evitar, nada será negociado. “Fora é fora”, já o tinha dito Jean Claude-Juncker, Presidente da Comissão Europeia, antes dos britânicos votarem a saída da UE. Confirmada a possibilidade, é agora tempo de tratar do processo formal de saída do Reino Unido do grupo dos 28 e fortalecer a União dos 27.

Essa intenção foi expressada já esta manhã pelo presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, que lamentou a decisão do povo britânico.

Em nome dos 27 líderes europeus. Estamos determinados em manter a unidade a 27”, disse Tusk, numa comunicação aos jornalistas.

 

Tusk deixou claro, no entanto, que até à saída formal do Reino Unido, as leis da União Europeia continuam a aplicar-se, garantindo os direitos e obrigações de todos os que vivem na Grã-Bretanha e Irlanda do Norte.

Já o presidente do Parlamento Europeu pede que a vontade dos eleitores britânicos seja respeitada, e que é agora tempo de negociar uma saída “rápida e clara”.

 

Durante 40 anos as relações entre o Reino Unido e a União Europeia foi ambígua. Agora é clara. A vontade dos eleitores deve ser respeitada. Agora precisamos de negociar a saída de forma rápida e clara."

Em declarações à televisão pública alemã ZDF, Martin Schulz disse que a União Europeia “vai negociar a sério com o Reino Unido, que, no futuro, será tratado como ‘terceiro país”. “Respeitamos o resultado, o Reino Unido decidiu sair”, frisou.

Martin Schulz considerou que o primeiro-ministro britânico, David Cameron, é parcialmente responsável pela derrota dos partidários que defendiam a permanência na União Europeia, acrescentando que o chefe do Governo britânico assume "uma grande responsabilidade".

Questionado sobre se a decisão do ‘Brexit’ vai realmente ser aplicada, Schulz disse que “não se pode consultar as pessoas e depois dizer que o resultado não interessa”.

O presidente do PE disse ainda estar convencido de que o ‘Brexit’ não vai resultar na saída de outros países da União Europeia.

Haverá uma reação em cadeia", disse Schulz, acrescentando: "Eu não acho que outros países serão incentivados a empreender por este caminho perigoso".

Os presidentes das principais instituições europeias estão reunidos em Bruxelas para debaterem o resultado do referendo. Para além dos presidentes da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, do Conselho Europeu, Donald Tusk, e do Parlamento Europeu, Martin Schulz, a reunião extraordinária de líderes europeus inclui também Mark Rutte, primeiro-ministro holandês, por ser este o país que detém, até julho, a presidência rotativa da União Europeia.

Na próxima terça-feira está prevista a realização de uma sessão especial do Parlamento Europeu.

Fundadores da UE reúnem-se este sábado

Além desta sessão especial, os chefes da diplomacia dos seis países fundadores da União Europeia (UE) reúnem-se no sábado em Berlim para debater as consequências do referendo britânico, anunciou o ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE) alemão, Frank-Walter Steinmeier.

Na reunião na qual Steinmeier será o anfitrião, participam os MNE francês, Jean-Marc Ayrault, holandês, Bert Koenders, italiano, Paolo Gentilon, belga, Didier Reynders, e o luxemburguês, Jean Asselborn, em representação dos seis países que a 09 de maio de 1957 assinaram o Tratado de Roma, que deu origem ao que é hoje a União Europeia (UE).

O Reino Unido a Irlanda e a Dinamarca foram os países do primeiro alargamento da Comunidade Económica Europeia, a 01 de janeiro de 1973.

Estas não são, no entanto, as únicas reuniões marcadas de emergência depois do resultado que dita a saída do Reino Unido da UE. O Presidente francês, François Hollande, convocou uma reunião ministerial para abordar o assunto, a chanceler alemã, Angela Merkel, convocou os líderes dos partidos com representação parlamentar para analisar as possíveis consequências do "Brexit" e o primeiro-ministro da Bélgica, Charles Michel, pediu uma reunião de emergência dos líderes europeus para serem discutir novas orientações europeias.

O chefe do governo belga sublinha que a União Europeia tem de "definir as suas prioridades" e desenhar "um novo futuro para a Europa".

Partidos Europeus salientam "grande revés" e "danos" para ambas as partes

O Partido dos Socialistas Europeus (PSE), segunda maior família política europeia, também lamentou o resultado do referendo, considerando que a saída da União Europeia constitui “um grande revés” para as duas partes.

Estou verdadeiramente chocado com o resultado do referendo. Nós apoiámos o nosso partido membro, o partido trabalhista do Reino Unido, na sua campanha pelo ‘Remain’ (permanecer). Queríamos uma Bretanha forte numa Europa forte, e estávamos a trabalhar por uma Bretanha Social numa Europa Social. Agora temos de redobrar os nossos esforços conjuntos”, afirmou o presidente do PES, Sergei Stanishev.

Apontando que, acima de tudo, é necessário “respeitar a escolha do povo britânico”, o PSE – família política que integra o Partido Socialista (PS) – no entanto “lamenta profundamente” o desfecho do referendo, por ainda acreditar que o ‘Remain’ era a melhor opção para todas as partes, mas sublinha que agora é altura de seguir em frente.

O referendo no Reino Unido sobre a UE consumiu imensas energias dos nossos partidos políticos por toda a Europa. Finalmente, ficou para trás. Agora, os Socialistas e Democratas europeus, os partidos trabalhistas e todos os partidos progressistas devem focar-se num único objetivo: assumir a liderança para aproximar a Europa dos seus povos”, acrescentou Stanishev.

O líder do Partido Popular Europeu (PPE) disse “lamentar mas respeitar” o resultado do referendo britânico, e sublinhou, de igual forma, que a decisão “causa um grande dano” às duas partes.

Respeitamos e lamentamos a decisão dos eleitores britânicos. Causa um grande dano a ambas as partes”, disse o alemão Manfred Weber na sua conta de Twitter.

Weber sublinhou também que as negociações para a saída do Reino Unido da União Europeia têm de estar terminadas no máximo em dois anos e que “não pode haver um tratamento especial” ou a favor do país no complicado e sem precedentes processo de saída.

Líderes europeus e ministros lamentam saída do Reino Unido

O ministro dos Negócios estrangeiros português, Augusto Santos Silva já lamentou profundamente a decisão do Reino Unido, considerando que “é um dia triste”, e reiterou que os interesses das comunidades portuguesas naquele país serão “protegidos e defendidos”.

Em primeiro lugar, lamentamos profundamente, mas respeitamos a decisão do povo britânico. Hoje é um dia triste, é mau dia para a Europa, mas a Europa tem de seguir em frente”, disse à Lusa o ministro Augusto Santos Silva.

O ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Marc Ayrault, foi dos primeiros a lamentar a decisão “triste” do Reino Unido de deixar a União Europeia, dizendo que a Europa tem de reconquistar a confiança das pessoas.

Triste para o Reino Unido. A Europa continua, mas tem de reagir e reconquistar a confiança dos seus povos. É urgente”, escreveu na sua conta de Twitter.

 

O primeiro-ministro da Dinamarca, o liberal Lars Lokke Rasmussen, considerou “muito triste” o triunfo do 'brexit' e alerta para que o euroceticismo que existe em vários países deve ser levado a sério.

Devemos respeitar a eleição que a maioria da população britânica conseguiu mas, ao mesmo tempo, não escondo que é um resultado muito triste para a Europa e para a Dinamarca”, disse em comunicado Lars Lokke Rasmussen líder do governo minoritário dinamarquês, apoiado pelos partidos de direita.

Já o primeiro-ministro da Hungria, o conservador Viktor Orbán, disse que os britânicos “conseguiram uma solução para a pressão migratória”.

A questão decisiva foi a migração. Os britânicos encontraram uma resposta para resistir”, disse o chefe do governo húngaro, em declarações à rádio Kossuth.

Orbán acrescentou que vai respeitar a decisão dos britânicos, argumentando que “é um direito de todas as nações decidirem o seu próprio destino”.

“Bruxelas deve ouvir a voz das pessoas”, acrescentou Viktor Orbán, referindo que acredita “numa União Europeia forte, capaz de dar respostas que a fazem mais forte, como, por exemplo, em relação às migrações”.

Orbán disse também que a “Hungria acredita na União Europeia”, mas acusa Bruxelas de não saber dar respostas ao “problema das migrações”.

O primeiro-ministro húngaro expressa, desta forma, uma visão moderada do sentimento enrocético espalhado pela Europa, e que deve intensificar-se após o referendo. Vários líderes de partidos radicais já manifestaram apoio à saída do Reino Unido, e intenção de recorrer a um referendo. Uma das primeiras vozes a manifestar-se neste sentido foi a líder do partido francês de extrema-direita Frente Nacional, Marine Le Pen.