Ione Wells, uma jovem britânica de 20 anos, escreveu uma carta aberta ao homem que a tentou violar. O agressor é um jovem somali de 17 anos, que a atacou quando ela voltava para casa a pé, após uma saída à noite com amigos.
 

“Não posso enviar-te esta carta, pois não sei sequer o teu nome. Sei apenas que foste acusado de agressão sexual agravada e ataque de natureza violenta prolongado. E tenho apenas uma questão.”

“Quando foste apanhado pelas câmaras de segurança a perseguir-me no meu bairro, quando esperaste que eu chegasse à minha rua para me abordar, quando me tapaste a cara com a mão fazendo com que eu não conseguisse respirar, quando me obrigaste a ficar deitada no chão com a cara a sangrar, quando lutei para tentar gritar.”

“Quando me puxaste o cabelo, quando tentaste esmagar a minha cabeça contra o passeio e disseste para eu parar de gritar, quando a minha vizinha te viu, começou a gritar e tu olhaste para ela e continuaste a bater-me!”

“Quando partiste o meu soutien ao meio com a força com que estavas a apertar os meus seios, quando não conseguiste chegar à minha mala porque o teu interesse era o meu corpo, quando não conseguiste o que querias porque a minha família e vizinhos vieram todos para a rua e os viste… Alguma vez pensaste nas pessoas que fazem parte da tua vida?”

“A minha vizinhança não se vai sentir insegura ao voltar para casa à noite. Vamos apanhar o último metro para casa e vamos andar sozinhos na rua, porque não vamos meter na cabeça que estamos em perigo ao fazê-lo (…) Subestimaste a minha comunidade. Ou devo dizer a tua?  Eu podia dizer ‘Imagina que era alguém da tua comunidade’, mas em vez disso, deixa-me dizer o seguinte. Não existem barreiras entre as comunidades; Só existem exceções e tu és uma delas."


Foi esta a carta divulgada por Ione Wells, no passado mês de Abril. Publicada no “Cherwell”, o jornal da universidade, foi partilhada milhares de vezes e apareceu em diversos jornais britânicos. A estudante afirmou que não permitirá que a tentativa de violação a mude e que sairá mais forte da situação.

"Esperava que escrever esta carta fosse não só para mim, mas para todos. Para que outras vítimas de outras comunidades sintam que alguém as está a defender", disse Ione Wells à BBC.


Sem culpa


Ione Wells foi atacada no dia 11 de abril a caminho de casa, após sair da estação de metro Chalk Farm, em Londres, no Reino Unido.

O rapaz que a atacou fugiu, mas foi preso pouco depois na região. Ele confessou o crime de violência sexual na última segunda-feira. De acordo com vários meios de comunicação britânicos, o agressor, cujo nome não foi revelado, foi condenado na quarta-feira a dois anos de prisão.

Ione Wells abriu mão do anonimato para poder lançar a campanha #NotGuilty ("não sou culpada", em tradução livre), nas redes sociais e argumentar que os ataques nunca são culpa da vítima.

"Fico feliz que algo tão inquietante e doloroso se tenha transformado em algo que me desperta sentimentos positivos", afirmou.


Ione Wells afirma que quer continuar com a sua vida e não experimentar a culpa que outras mulheres vítimas do mesmo crime podem chegar a sentir.

No perfil no Twitter, a estudante agradeceu o apoio: "A todos da comunidade #NotGuilty – MUITO OBRIGADA. Lembrem-se que o meu caso é apenas um de muitos, muitos outros. Há muito mais pelo que lutar!"