O ex-alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados, António Guterres, avisou, esta terça-feira, que o sistema de asilo europeu pode colapsar e defendeu que a Europa deve alcançar, este inverno, "um acordo histórico" com os países do Médio Oriente.

António Guterres defendeu a necessidade de "uma ação concertada de todos os Estados europeus que aproveite o inverno - apesar de tudo, as pessoas que chegam são em menor número - para um acordo de fundo com os países do Médio Oriente, nomeadamente a Turquia, a Jordânia e o Líbano, que permita um movimento organizado que substitua esta tragédia no Mediterrâneo Oriental e o caos nos Balcãs".

"Se não houver o empenhamento solidário na Europa na construção desse acordo histórico com os países de primeiro refúgio do Médio Oriente, temo que o sistema de asilo europeu possa colapsar este ano e isso seria uma tragédia de proporções indescritíveis", alertou Guterres, que no final de dezembro terminou o mandato como alto comissário das Nações Unidas para os Refugiados, cargo que ocupou durante dez anos, falando aos jornalistas à margem da sessão de abertura do Seminário Diplomático, em Lisboa, em que foi o orador convidado.

O antigo primeiro-ministro português criticou o que disse ser "uma epidemia" na Europa, quando se assiste a "uma multiplicação de atos individuais de países europeus, com políticas cada vez mais restritivas, cada um procurando ser mais restritivo que o vizinho, para ver se os refugiados vão para o vizinho em vez de irem para o país que toma estas medidas", como os casos recentes da Dinamarca e Suécia.

O ex-alto comissário da ONU lamentou o que disse ser a "profunda desunião" dos países europeus na resposta à crise dos refugiados.

"Parece evidente que é preciso fazer muito mais na origem, quer em relação à paz na Síria e na criação de condições para que os sírios que estão na Turquia, no Líbano ou na Jordânia possam ter as crianças na escola e acesso ao mercado de trabalho e isso só se esses países receberem um apoio muito significativo, o que até agora não tem acontecido", considerou.


A falta de resposta da UE tem permitido que sejam "traficantes e contrabandistas" a controlar o movimento migratório em direção à Europa, avisou Guterres, que ocorre "de forma completamente caótica" e que assusta "quem está em casa a ver televisão e pensa que a Europa está a ser invadida", o que não é real.

Este ano há na Europa menos de dois refugiados por cada mil europeus, ao passo que no Líbano, a proporção é de um refugiado por três libaneses, exemplificou.

É necessária "uma capacidade maciça de receção à entrada, fazer o registo de todos, fazer a verificação de segurança de todos e depois distribuí-los por todos os países europeus", sustentou.

A crise migratória "seria perfeitamente gerível se a Europa se unisse e se organizasse, de uma forma solidária, repartindo a responsabilidade em termos justos pelos diferentes países europeus", considerou.

Sem essa união dos países europeus, "tudo tem sido caótico", com a Alemanha e a Suécia a receber o maior número de pessoas.

Este é um "momento decisivo" para o futuro da União Europeia, alertou Guterres.

Antes, na sua intervenção, o antigo responsável da ONU defendera a necessidade de "duplicar aquilo que é gasto na diplomacia humanitária".


"A comunidade humanitária encontra-se hoje financeiramente falida, não no sentido de que as organizações vão fechar as portas por falta de dinheiro, mas de que não têm hoje capacidade de responder às mais elementares necessidades de proteção e de salvaguarda da vida humana", afirmou.

 

Guterres pede diplomacia para a paz num mundo com relações caóticas


António Guterres defendeu, também, que a diplomacia para a paz deve ser "a prioridade número um" numa altura em que as relações internacionais estão "caóticas".

"A palavra que descreve hoje a relação de forças à escala internacional é 'caótica'".


As consequências, acrescentou, "são a imprevisibilidade e impunidade que proliferam e a possibilidade de conflitos aparecerem onde menos são previstos e de uma forma que é extremamente gravosa para as populações porque os responsáveis sentem que a impunidade é total".

As violações dos direitos humanos e da lei humanitária, as situações de massacre, a "terrível violência" em relação às mulheres e crianças têm hoje "uma muito maior visibilidade, mas chocam com a incapacidade de a comunidade internacional lhes responder", considerou Guterres.

Na sua opinião, a diplomacia para a paz deve ser "a questão central da ação política", mas "tem havido muito poucas iniciativas neste domínio". Para Guterres, "há um problema de liderança" internacional e a situação atual é "perigosa", com alguns dos atuais conflitos a constituírem "uma ameaça séria para toda a gente".

"Acho que ainda há países que acreditam que podem ganhar guerras, mas a minha convicção é que nenhuma das guerras pode ser ganha, elas vão prolongar-se de uma forma perigosa para todos. Enquanto não estiverem todos convencidos de que a guerra não é ganhável por ninguém, será difícil criar as condições para que a paz seja restabelecida", sustentou António Guterres.