Enquanto continua a limpeza a fundo a tudo o que possa parecer oposição ao poder do presidente Recep Erdogan, a força aérea turca voltou aos habituais ataques contra posições dos oposicionistas do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK).

Pela primeira vez desde a tentativa de golpe militar fracassado, aviões F16 fizeram um raide no norte do Iraque. A agência de informação turca Anadolu adianta que 20 militantes dos separatistas do PKK foram mortos.

A juntar aos eternos inimigos separatistas curdos, o poder turco tem também a mira apontada a tudo o que possa constituir oposição dentro e fora de portas. No topo da lista continua o imã Fethullah Gulen, de quem Ancara já terá pedido a extradição aos Estados Unidos.

Venha a nós a cabeça de Gulen

Mantém-se o braço de ferro por causa do imã Gulen, refugiado por opção própria nos Estados Unidos, que Ancara considera ser o principal inspirador e instigador do golpe militar fracassado.

Um pedido de extradição já terá sido formalizado pela Turquia. Os Estados Unidos exigem que sejam cumpridas todas as formalidades judiciais próprias neste tipo de casos e que sejam apresentadas provas do envolvimento de Gulen. Já para Ancara, há indícios mais que suficientes.

Há grandes suspeitas do seu envolvimento nesta tentativa de golpe. São razões suficientes”, declarou um porta-voz do governo turco, Ibrahim Kalin, de seu nome.

Do outro lado do Atlântico, Fethullah Gulen, escritor e clérigo muçulmano, criador do movimento islâmico Hizmet, ou “Serviço”, recusa qualquer envolvimento na intentona.

Insto o governo norte-americano a rejeitar qualquer abuso nos procedimentos de extradição para facilitar vinganças políticas”, declarou Gulen.

O diferendo entre Ancara e os Estados Unidos aquece numa altura em que os dois países mantém conversações sobre a base aérea de Incirlik, usada por turcos e norte-americanos, que tem estado sem energia desde o falhado golpe militar.

A base é usada pela aviação norte-americana para lançar ataques contra alvos na Síria e Iraque, aproveitando o facto da Turquia ser membro da NATO, contribuindo aliás com o segundo maior contingente militar da organização.

Generais no banco dos réus

As autoridades turcas formalizaram já acusações contra 99 generais, que vão assim ter de enfrentar a justiça.

Segundo dois oficiais turcos ouvidos pela agência de informação Reuters, a acusação é a de envolvimento no golpe militar falhado.

Na prática, quase um terço dos cerca de 360 generais turcos vão enfrentar a justiça, sendo que 14 ainda se encontram detidos.

Afastamentos coletivos em curso

Nas últimas horas, o poder turco decidiu impedir todos os universitários de viajarem para o estrangeiro. É a mais recente de muitas restrições que têm o falhado golpe militar como pretexto.

Uma fonte oficial do governo truco citada pela agência de informação Reuters classifica a medida como temporária, mas admite haver a suspeita de ligações entre académicos turcos e militares revoltosos.

Mais de 50 mil pessoas já foram afastadas, despedidas e detidas desde o golpe militar fracassado de sexta-feira, ações vistas com preocupação por várias organizações internacionais e que levaram até as Nações Unidas a exigir que a Turquia respeite a lei e os direitos humanos.

Apesar das recomendações, a purga continua. No setor da educação, mais de 15 mil professores e funcionários foram despedidos e mais de 1500 catedráticos foram forçados a resignar.

Continuando a somar, cerca de nove mil funcionários do ministério do Interior foram demitidos, tal como 1500 do das Finanças e até mais de 250 do gabinete do primeiro-ministro.

Vamos arrancá-los pelas raízes” foi a forma como o primeiro-ministro Binali Yildirim falou no Parlamento sobre a campanha contra os alegados partidários do movimento Hizmet, inspirado pelo imã Fethullah Gulen.

Aliás, nos últimos dias, a campanha do poder turco anti-Gulen levou à revogação de 24 licenças de rádios e televisões alegadamente ligadas a partidários do clérigo.

Argumentos semelhantes levaram à prisão de seis mil militares, ao despedimento de nove mil polícias e à suspensão de três mil juízes. E há também a ameaça da parte do poder de reintroduzir a pena de morte no país.

Na base deste verão quente na Turquia está o golpe militar fracassado - e para muitos, mal explicado - da passada sexta-feira, que causou 308 mortos entre revoltosos, civis e forças leais a Erdogan e mais de 1.400 feridos.