Na véspera de fazer 58 anos, Miguel Mario Díaz-Canel Bermúdez deverá ser eleito presidente pela Assembleia Nacional de Cuba. Os trabalhos começam esta quarta-feira, às 9:00 locais (14:00, em Lisboa) e a sua eleição deverá ser confirmada pelos delegados na quinta-feira, 19 de abril, aniversário da vitória militar na Baía dos Porcos, local onde em 1961, exilados cubanos formados e apoiados pela CIA tentaram invadir a ilha para derrubar Fidel Castro do poder.

Não pensemos que vai mudar tudo de uma vez, mas também não vai ficar tudo como até aqui", reflete José Paulo Fafe, analista e consultor de marketing político, conhecedor da realidade de Cuba, onde viveu entre 1975 e 1977, país que visita com regularidade.

À TVI24, o consultor sublinha mesmo que Díaz-Canel "é suficientemente sagaz para marcar Cuba nos próximos anos". Já que deverá estar no poder por dois mandatos de cinco anos, ou seja "será presidente até 2028. E Raul apoia-o!"

Raúl Castro quando o nomeou vice-presidente deu um sinal claro de que era Díaz-Canel que queria como sucessor", considera José Paulo Fafe, sendo que o "sucessor anunciado, sobreviveu a essa sucessão". Ou seja, resistiu a tensões e jogos de bastidores que também existem em Cuba, "com os quais não é fácil de lidar, num país de partido único".

Díaz-Canel tornou-se primeiro vice-presidente do Conselho de Estado de Cuba em 2013. Foi o primeiro filho da revolução a chegar ao cargo, já que nasceu em 1960, um ano após a tomada do poder no país pelos "barbudos" da Sierra Maestra, liderados por Fidel Castro, com Raul e Che Guevara.

Houve tentativas ao longo dos últimos anos, sobretudo de certos setores como a intelligentsia militar para que houvesse alternativa a Díaz-Canel, que passaram até pelo "lançamento" do nome do filho de Raul, Alejandro Castro Espín, um militar", revela José Paulo Fafe.

Os enredos das malhas tecidas nos bastidores do poder e a sobrevivência de Díaz-Canel a isso poderá constituir uma primeira prova de força do novo presidente. O analista relembra, por exemplo, o caso de Carlos Lage Dávila, o médico que foi vice-presidente do Conselho de Estado cubano até março de 2009 e visto como forte sucessor até de Fidel Castro. Seria destituído por Raul. Ou seja, "desapareceu da sucessão anunciada e foi mais um".

"Quadro do partido"

Inevitavelmente, nos últimos dias e horas, multiplica-se na imprensa internacional, os perfis de Miguel Díaz-Canel. É, apelidado,de Richard Gere das Caraíbas, pelas parecenças físicas com o ator norte-americano, refere-se a sua paixão desde jovem pela música do Beatles, o uso de computadores e novas tecnologias, sem lhe causar repulsa ou desdenhar o poder das novas tecnologias. Antes, pelo contrário.

Díaz-Canel é licenciado em Engenharia eletrónica. Nasceu em Placetas, cidade do município de Villa Clara, é filho de uma professora e de um operário e bisneto de um espanhol das Astúrias. Refere ainda o jornal El País, que é casado pela segunda vez e tem dois filhos de seu primeiro casamento. No final da década de 80 do século passado, ingressou na União dos Jovens Comunistas e passou a secretário do Partido em 1994, na sua província.

Em Villa Clara, Díaz-Canel ganhou a imagem de ser um dirigente mais aberto, sem uniforme, que até apoiou um centro cultural onde até havia espetáculos de travestismo. Certo é que foi subindo na nomenclatura do regime, até chegar a ministro da Educação e, em 2013, vice-presidente de Raul Castro, que dle então disse, num discurso, "não é um novato ou improvisado".

Díaz-Canel é um homem de Raul Castro. É um quadro do partido, que, de alguma forma, desafia o estilo do dirigente cubano e tentará pensar pela sua cabeça", sublinha José Paulo Fafe.

Apesar das diferenças, sobretudo de estilo, o consultor não espera uma "rutura em Cuba nos próximos tempos", mais não seja, do ponto de vista ideológico.

Na realidade dos cubanos, a questão ideológica pouco se coloca. O que se coloca é a questão económica. São poucos os que se preocupam com os partidos, ao fim de tantos anos a viver com partido único. De uma forma direta, o que interessa às pessoas é ter dinheiro no bolso. E nesse aspeto, Díaz-Canel pode ter um papel importante", sublinha José Paulo Fafe.

Conviver com Castro e Trump

Díaz-Canel como presidente de Cuba terá a continuidade de Raúl Castro como líder máximo do Partido Comunista. E na outra margem do estreito da Florida, a pouco mais de 150 quilómetros de mar, os Estados Unidos de Donald Trump, aparentemente mais agrestes para Havana do que na presidência de Obama, desde a abertura de relacionamento levada a cabo por Barack Obama.

Internamente, "poderemos ver reformas que já vêm do tempo de Raúl", prevê José Paulo Fafe, considerando que "se houver mudanças no quotidiano das pessoas, Díaz-Canel tem a oportunidade de as fazer". Por exemplo, permitindo e estimulando pequenas empresas, alguma livre iniciativa.

Já do outro lado do estreito, a relação com os Estados Unidos poderá manter-se, mais não seja, como está.

O que mudou na prática após a saída de Obama? Não deixou de haver embaixadas, as remessas de cubanos nos Estados Unidos continuam a chegar e Trump tem de ter alguma cautela porque tem uma comunidade cubana de 3.ª geração, muito diferente dos primeiros exilados, mais atenta e que voltou até a poder ir a Cuba", defende José Paulo Fafe.

Com previsões e inevitáveis incertezas, a 19 de abril vira-se uma página na história política de Cuba, a ilha que há quase 60 anos desafia a super-potência dos Estados Unidos da América. Uma certeza parece garantida: algo, muito ou pouco, irá mudar. Ou nas palavras do analista José Paulo Fafe, "vai ser muito interessante ver se Díaz-Canel se aguenta por si só".