A milhares de quilómetros do bairro nova-iorquino do Bronx, no subúrbio de Imbaba, no Cairo, nasceu uma estrela do «rap». Com véu islâmico e 19 anos, Mayam Mahmud, é mestra de cerimónias. «Os meus vizinhos estão muito felizes. É um bairro popular e nunca tinham estado tão perto de uma pessoa famosa», conta a jovem ao diário espanhol «El Mundo».

Os dias de Mayam Mahmud transformaram-se numa montanha russa desde que cantou as próprias rimas no programa de televisão «Arabs Got Talent». Não passou das semifinais, mas, desde então, ainda não parou. A jovem acaba de regressar de Londres, onde recebeu o prémio concedido anualmente pela organização Index on Censorship.

Por onde passa, Mayam Mahmud canta rimas que são autênticos socos no estômago dos egípcios que assediam mulheres. «Como podes julgar-me pelo meu cabelo ou pelo meu véu? Se um dia olhares para mim, eu não me vou esconder ou ter vergonha. Vens atrás de mim e flirtas comigo e não vejo nada de errado com isso...», afirma numa das letras mais famosas.

O bullying, o assédio, tem sido uma tortura diária nas ruas egípcias. De acordo com um estudo da ONU Mulheres, 99,3% das mulheres admite ter sido vítima de palavras grosseiras, propostas indecentes ou atritos indesejáveis. O penúltimo caso denunciado ocorreu há algumas semanas na Universidade do Cairo. A estudante assediada escapou de uma multidão de mãos, mas viu-se confrontada com as declarações do reitor a questionar a roupa que a rapariga vestia. Algumas mulheres optam por permanecer em silêncio, e muitas vezes as vítimas transformam-se em agressoras e incentivam os algozes.

Mayam Mahmud não. «Conto os problemas que temos, as minhas amigas e eu. Quando calamos, ampliamos o problema. Talvez, justamente por causa do silêncio, o assédio é maior aqui do que noutros lugares», diz quem considera as próprias letras «como uma forma de chegar às mulheres que sofrem e também aos homens».

À moradora mais famosa de Imbaba não interessa a música que «maquilha» a realidade. «Quando alcança a fama, a maioria dos músicos egípcios prefere cantar temas comerciais. Mas é preciso mudar a mentalidade. O público deve ouvir letras que falam sobre os problemas», defende a artista, que estuda e tenta tirar o primeiro curso de Ciências Políticas e Economia.

A paixão pelo que faz não é de agora. Quando tinha dez anos, a mãe incentivou-a a escrever poesia. Com o tempo, os versos transformaram-se em «rap». «O rap dá-me uma liberdade que a poesia e as suas regras não têm. É também um estilo que não exige uma voz doce. O que importa é a mensagem», afirma.

Um recado que envia sempre que pega no microfone e sobe ao palco: «Não é a roupa o inapropriado ou o errado. É a tua maneira de pensar. (...) Um olhar pode magoar. E por esse olhar mereces umas bofetadas na cara».