Rádon, ou radão, o elemento número 86 da tabela periódica usada na Química, é o principal suspeito para o número alarmante de casos de cancros detetados na pequena aldeia galega de Cruceiro de Roo, a 40 quilómetros de Santiago de Compostela.

Durante três meses, os habitantes da aldeia mediram os níveis de rádon, que ao contrário dos outros descendentes do urânio, é um gás, que se liberta dos solos e rochas, materiais de construção e água. A concentração ter-se-á revelado elevada, aparentemente emanando do subsolo granítico, um problema que também já foi denunciado por sindicalistas na zona velha da cidade capital da Galiza, Santiago de Compostela.

Algo estranho se está passando e as pessoas estão muito preocupadas", refere ao jornal espanhol El País, a professora María José González, a primeira a alertar o médico local para o problema, quando o seu pai foi afetado pela doença.

Foi o médico Xosé María Dios, que, desde 2015, levou a cabo dois estudos. Traçou um diâmetro de 800 metros com o centro no cruzeiro de pedra que existe na pequena aldeia e, ao falar, com as 81 pessoas das 23 casas habitadas naquele perímetro, percebeu que 23 dos residentes tinham casos de cancros.

Concluindo, a incidência era de 28,39%, quando a média espanhola oscila entre os 3% e 4%.

Cancro do pulmão

Com as suspeitas da população a voltarem-se para a emanação de rádon na aldeia, o médico defende mesmo que a alta prevalência do gás pode abrir novas linhas de investigação, já que cientificamente, está apenas associado ao cancro do pulmão e não a outros tipos de tumores, que também afetaram habitantes de Cruceiro de Roo.

A única evidência científica até hoje é de que o rádon multiplica apenas a probabilidade de cancro do pulmão", refere Juan Miguel Barros, diretor do Laboratório Galego de Rádon e professor de Medicina Preventiva e Saúde Pública na Universidade de Santiago.

Ainda assim, dada a concentração de casos de tumores na pequena aldeia, o médico Xosé María Dios, ouvido também pelo El País, inclina-se para a possibilidade do gás cancerígeno poder estar associado a vários tipos de cancro.

O objetivo é dar respostas às pessoas sobre o que está acontecendo aqui", salienta o médico, enquanto se multiplicam as críticas da população contra o atraso do governo espanhol em aplicar legislação comunitária sobre os níveis permitidos de rádon.

Atraso na legislação

Após três décadas de alertas por parte de cientistas, uma diretiva da Comissão Europeia veio obrigar os estados membros a tomar medidas contra o gás cancerígeno em territórios de risco, casos da Galiza, a Estremadura ou Madrid.

Desde 2013, os estados-membros da União Europeia ficaram obrigados a fazer medições de rádon em residências, edifícios públicos e locais de trabalho, tal como a combater a poluição desse gás nos locais em que a média anual de concentração excede os 300 becquerels por metro cúbico, a unidade do Sistema Internacional de radioatividade, que equivale à atividade resultante da desintegração de um nuclídeo radioativo por segundo.

Segundo o jornal El País, a diretiva entrou em vigor há mais de dois meses em Espanha, mas o governo espanhol ainda não a regulamentou, de forma a ser aplicada no seu território.

Outras queixas contra as concentrações de rádon já existiam, contudo, antes do caso estranho de Cruceiro de Roo. Em Santiago de Compostela, o sindicalista Fulgencio Fernández conta que num departamento no centro da cidade foram detetadas concentrações de 900 becquerels, três vezes o que a União Europeia permite, obrigando a que fossem tomadas medidas para a ventilação do local.