Younis, uma adolescente queniana com 13 anos, só agora pode começar a ter uma vida igual à maior parte dos jovens. Com apenas nove anos, a rapariga foi vendida e obrigada a casar com um homem quase 70 anos mais velho. Agora, ao lado de centenas de outras jovens africanas, está a desafiar as tradições do casamento infantil e da mutilação genital feminina, ilegais no Quénia. 

Younis tem 13 anos e pertence à tribo Samburu, uma das mais tradicionais e isoladas do Quénia. Uma dessas tradições aprisionou Younis durante anos, depois dos pais a terem obrigado a casar com um homem com idade para ser seu avô. A menina tinha apenas nove anos quando foi prometida. Ele tinha 78.

“Eu fui para casa dele e fiquei com ele durante uma semana”, explicou, em entrevista à CNN. “Ele disse-me que ia ser mulher dele, mas eu era muito inocente. Eu queria ir à escola. Contudo, aquele homem queria que eu fosse a sua terceira esposa. Eu disse-lhe que não ia ser mulher dele e ele bateu-me com uma cana”.


Younis queria fugir, algo que só foi possível depois de conhecer Josephine Kulea, da Fundação Samburu Girls.
 

“Eu ouvi dizer que havia uma mulher que ajudava crianças. Eu vim de Baragoi descalça. Nem sequer tinha sapatos naquele dia. Vim para Maralal e a Josephine acolheu-me e resgatou-me”.


Younis é apenas uma das centenas de raparigas na sua condição que conseguiu escapar.

Josephine, também conhecida como “Mama Kulea”, é como se fosse mãe de Younis e de outras 200 raparigas que acolheu e que moram num internato da associação que criou. Josephine está a tentar lutar contra as tradições Samburu, nas quais ela própria cresceu.

Josephine conta que apenas se começou a questionar, depois de, ela própria, ter frequentado um internato e ter tido a possibilidade de estudar enfermagem.
 

“Eu apercebi-me que éramos nós que estávamos a fazer mutilação genital feminina, enquanto que as outras comunidades não estão a fazê-lo. Apercebi-me de que há coisas que não estão certas e eu precisava de fazer a diferença. Foi aí que comecei a resgatar raparigas”.


De acordo com o relato à CNN, Josephine começou a sua missão em 2011, salvando as duas primas. “Uma tinha dez anos e ia casar-se” e, como em maior parte das vilas, as noivas têm de passar pela circunsição genital. Depois de a ter salvo, recebeu uma chamada, contando que a irmã, com apenas sete anos de idade, a teria de substituir e casar no seu lugar.
 

“Eles disseram que a irmã mais nova, que tinha apenas sete anos, tinha de casar porque as vacas já tinham sido oferecidas e, por isso, alguma rapariga teria de ir com o homem”.


A segunda prima também teve a ajuda de Josephine e os tios acabaram por ser presos.

Apesar do casamento com menores ser ilegal no Quénia, desde 2011, e de Josephine trabalhar em conjunto com as autoridades, a tribo não gosta de mudanças e a sua vida já foi inúmeras vezes ameaçada.

Josephine tem orgulho na sua ascendência e quer que as suas protegidas sintam o mesmo. Simplesmente acredita que as tradições têm de mudar para que as raparigas possam ter um papel importante na comunidade.

“Há esperança. E eu sei que quantas mais raparigas levarmos para a escola, maior será a diferença na minha comunidade”.