O secretário para a Segurança, Lai Tung-kwok, nega que o Governo tenha recorrido a tríades para atacar os manifestantes, depois de acusações de que infratores contratados invadiram os locais de protesto para instigar confrontos violentos.

Duas das mais movimentadas áreas comerciais de Hong Kong - Causeway Bay e Mong Kok - viveram momentos caóticos na sexta-feira, quando grupos atacaram manifestantes que ocupam as ruas de algumas áreas da cidade desde o início da semana.

Os manifestantes reivindicam o direito a escolher os candidatos a chefe do Executivo, em 2017, mas Pequim decidiu, a 31 de agosto, que os aspirantes ao cargo vão precisar do apoio de mais de metade de um comité de nomeação para concorrer à eleição e que apenas dois ou três serão selecionados.

Pequim reafirmou, também, o seu forte apoio à polícia de Hong Kong e ao uso controverso de gás lacrimogéneo contra os manifestantes pró-democracia e advertiu que qualquer ideia de importar «uma revolução colorida» na China continental será uma «fantasia».

«Até mesmo os jovens estudantes são obrigados a respeitar a lei. As ações tomadas pela polícia de Hong Kong face ao movimento "Occupy Central" são absolutamente necessárias para fazer respeitar a lei», escreve o Diário do Povo, jornal do órgão central do Partido Comunista chinês.

«Face aos manifestantes que ignoram as ordens da polícia, que se precipitam para transgredir os cordões de segurança, e que querem atingir os polícias com os seus guarda-chuvas (...) a polícia não tem outra alternativa senão usar o gás lacrimogéneo», continua o editorial contra o movimento pró-democrata em Hong Kong, considerado «ilegal» por Pequim.

Protestos marcados por relatos de abusos

Mulheres que participam nos protestos pró-democracia estão a ser alvo de agressões sexuais e assédio, segundo manifestantes e a Amnistia Internacional (AI).

A AI acusou a polícia de Hong Kong de «falhar no seu dever» de proteger os manifestantes da violência que eclodiu ao final da tarde de sexta-feira, afirmando que mulheres e raparigas estão a ser alvo de ataques.

Os ataques em causa são «agressões sexuais, assédio e intimidação», refere a organização de defesa dos direitos humanos em comunicado, indicando que os incidentes se reportam aos bairros comerciais de Mong Kok e Causeway Bay.

Há também relatos de dois jornalistas da Rádio e Televisão Pública de Hong Kong (RTHK) que ficaram feridos em incidentes registados em duas zonas de protesto.

Segundo a estação RTHK, um jornalista sofreu ferimentos no rosto depois de ter sido atacado por um homem que protestava contra o movimento "Occupy Central" no distrito de Mong Kok.

Mak Ka-wai disse que foi atacado de repente e que um homem lhe deu um murro enquanto ele filmava uma pequena altercação entre apoiantes e opositores dos protestos nas ruas.

Já um artista chinês terá sido detido depois de ter difundido uma foto em apoio aos manifestantes, disse esta sábado a sua família, numa altura em que associações revelam que dezenas de outras detenções foram feitas, esta semana, na China.

Wang Zang, conhecido pela escrita de poemas sobre a repressão sangrenta do movimento de Tiananmen em 1989 e por outras ações consideradas provocadoras, publicou no início da semana nas redes sociais Twitter (bloqueado na China) e no Weibo, o seu equivalente chinês, uma fotografia em apoio aos manifestantes pró-democracia e a favor do sufrágio universal incondicional.

Rússia espera que estabilidade regresse o mais rápido possível

A Rússia espera que a estabilidade seja retomada em Hong Kong o mais rapidamente possível, afirmou, esta sexta-feira, o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, em declarações citadas hoje pela agência oficial chinesa.

«Os acontecimentos em Hong Kong pertencem aos assuntos internos da China. A Rússia espera que a estabilidade da Região Administrativa Especial chinesa seja retomada o mais rapidamente possível», refere um comunicado do ministério enviado à Xinhua.

Na tarde de sexta-feira, estalaram confrontos entre grupos que se opõem aos protestos e manifestantes em Mong Kok e em Causeway Bay, duas grandes zonas comerciais.


Por sua vez a chanceler alemã, Angela Merkel, voltou a criticar a condenação do intelectual uigure Ilham Tohti e pediu respeito pelos direitos cívicos em Hong Kong, numa mensagem prévia à ronda de conversações com a China na próxima semana.

As autoridades chinesas «devem respeitar» o direito à liberdade de expressão dos cidadãos de Hong Kong, afirmou a chanceler, numa declaração difundida em vídeo, onde exprime o seu propósito de abordar a questão do respeito pelos direitos humanos perante os seus interlocutores chineses.

Merkel referiu-se também ao «caso concreto» do intelectual uigure Ilham Tohti, a cuja recente condenação a prisão perpétua se seguiu uma contundente reação por parte do executivo alemão.