O chefe dos Guardas da Revolução assegurou, esta quarta-feira, poder anunciar “o fim da rebelião” no país, depois de seis dias de protestos contra o poder e as dificuldades económicas, que motivaram mais de 20 mortos. Um desses protestos ocorreu precisamente hoje, dia em que a ONU instou o país a reduzir a tensão e a investigar as mortes ocorridas.

“Neste movimento de rebelião, houve concentrações de no máximo 1.500 pessoas e o número de desordeiros não ultrapassou as 15.000 pessoas em todo o país”, adiantou o general Mohammad Ali Jafari, numa nota divulgada no site dos Guardas da Revolução.

“Um grande número de desordeiros, no centro da rebelião, (…) recebeu formação por parte da contrarrevolução dos ‘monafeguines’”, disse, utilizando um termo que designa os Mujahidine do Povo, um movimento de resistência ao governo iraniano. Aqueles “foram detidos e haverá uma ação firme contra eles”, sublinhou.

O general Jafari assinalou também que milhares de pessoas tinham sido “treinadas” pelos Estados Unidos para “fomentar a agitação no Irão”.

É preciso agradecer ao grande povo iraniano pois, logo que as pessoas perceberam que a mão dos estrangeiros e dos revoltosos estava envolvida, separaram os caminhos, apesar de todos os problemas económicos, para defender os valores da revolução e do Irão islâmico”.

Dezenas de milhares de manifestantes pró-regime concentraram-se hoje numa dezena de cidades do Irão para condenar os “motins” que agitam o país há cerca de uma semana, após uma noite mais calma do que as anteriores em Teerão e na província.

Outras manifestações estão previstas para quinta-feira em Ispahan e Mashhad para apoiar o poder e condenar a violência dos últimos dias.

Desde que começaram as manifestações contra a má situação económica do país e o regime, a 28 de dezembro, foram mortas 21 pessoas e detidas mais de 450.

Os Estados Unidos exigiram ontem uma reunião de urgência do Conselho de Segurança da ONU para analisar os protestos no Irão.

Avisos da ONU

O Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos instou precisamente hoje as autoridades do Irão a reduzirem a tensão. Tal como o secretário-geral António Guterres,  que pediu que “a violência seja evitada”, exortando as autoridades de Teerão a respeitarem o direito de manifestação e a liberdade de expressão do povo iraniano.

O alto comissário Zeid Ra'ad Al Hussein disse, em comunicado, estar “profundamente preocupado com as informações que apontam para mais de 20 mortos, incluindo um menino de 11 anos, e centenas de detidos durante a recente vaga de protestos no Irão”.

As autoridades iranianas devem respeitar o direito de todos os manifestantes e detidos, incluindo o direto à vida, e devem garantir a sua segurança”.

O diplomata jordano, que assume o cargo de Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos desde 2014, apelou à realização de uma investigação minuciosa, independente e imparcial sobre todos os atos de violência que ocorreram no âmbito dos protestos.

Também pediu um esforço por parte das autoridades iranianas para que todas as forças de segurança tenham uma atuação proporcionada e estritamente necessária. E relembrou que qualquer medida deve ser enquadrada "plenamente" no Direito Internacional.

O Alto Comissário sublinhou ainda que os iranianos saíram às ruas para expressar a sua insatisfação com as políticas do governo de Teerão e que têm o direito de serem ouvidos, defendendo que os problemas levantados pelos protestos populares devem ser resolvidos pela via do diálogo “em pleno respeito da liberdade de expressão e do direito à reunião pacífica”.

“É essencial que as medidas das autoridades não provoquem uma espiral de violência como a de 2009”, advertiu Zeid Ra'ad Al Hussein, que anunciou, a 20 de dezembro, que não pretende avançar para um segundo mandato.

A reeleição do então Presidente Mahmoud Ahmadinejad originou protestos a nível nacional, com milhares de iranianos a denunciarem nas ruas das principais cidades do país uma fraude eleitoral e a manifestarem apoio ao então candidato reformista Mehdi Karroubi.