Michael Paramasivan, um morador do prédio, estava a ver um filme quando começou a sentir o cheiro a plástico. O homem contou à CNN o que viveu: 

“Ouvi gritar: está a ficar maior, está a ficar maior!”. Foi nesta altura que Paramasivan pegou na filha e começou a correr pelas escadas. “Se tivesse adormecido, teríamos morrido todos. Não havia nenhum aviso, não havia nenhum som próprio para nos avisar do que se estava a passar”, conta o homem lamentando. “Perdemos tudo. Perdeu-se tudo o que estava na casa”.

O incêndio numa torre residencial com 24 andares, no centro de Londres, que deflagrou esta madrugada, continua a ser combatido. Várias testemunhas afirmam que não foi dado nenhum alerta quando o fogo surgiu. As autoridades britânicas já confirmaram seis mortos.

Gritos foram o alerta principal

Muitos moradores, que foram evacuados, disseram à CNN que não ouviram o alarme de incêndio. O principal alerta foram os gritos das pessoas. Matt Kane, morador num prédio vizinho à Grenfell Tower, onde se deu o incêndio, disse que acordou com os gritos. Depois de se vestir e descer as escadas do apartamento, Kane viu "uma vizinha. Ela disse ‘fogo’ e pensei que fosse a escola do outro lado da rua. Saí [do prédio] e vi a torre em chamas”.

David Phippen, um homem local, foi também acordado por pessoas que gritavam por ajuda. O primeiro pensamento dele foi que estaria a haver uma discussão, mas depois deparou-se com o fogo.

Emma é outra das testemunhas que diz ter visto pessoas a atirarem-se das janelas para tentarem escapar ao incêndio que consome o Grenfell Tower, em Londres.

“Uma mulher estava num andar bem alto e a gritar: Eu tenho um bebé, por favor ajudem-me a sair, eu não consigo sair, estou presa, preciso salvar o meu bebé. Não foi nada agradável ouvir e é triste saber que não podes fazer nada em relação a isso, porque não consegues chegar lá para ajudar”, disse Emma em declarações à Sky News.

“Eu vi algumas pessoas a saltarem. Naquele momento ou tu saltas para tentar salvar a tua vida e partes alguns ossos, ou és engolido pelas chamas. As pessoas estavam a gritar e podiam-se ouvir barulhos ensurdecedores. As pessoas estavam desesperadamente a tentar salvar-se. Os vizinhos estavam em frente dos prédios, dispostos a agarrar pessoas”, acrescentou Emma.

Mahad também sobreviveu ao 'inferno' que se vive em Londres. Conseguiu escapar juntamente com os filhos, depois de ouvir um “barulho estranho” na porta da frente. Mohad disse que assim que abriu a porta e viu fumo, acordou os filhos, deu-lhes toalhas molhadas e escaparam pelo fogo.

Em testemunhos à Sky News, Mahad disse: “As pessoas do lado esquerdo do prédio estavam a gritar ‘Ajudem-nos’ (…) Nós sabemos que ainda há pessoas lá dentro".

Reke, residente do Grenfell Tower, conseguiu-se salvar juntamente com o neto, depois de se aperceber do incêndio quando saia da casa de banho. “Eu costumo abrir sempre a janela e ouvi alguns barulhos incomuns vindos do exterior. Espreitei e vi muitos carros de bombeiros e polícias por todo o lado. Então perguntei a um deles: ‘Sr. Agente, o que está a acontecer?’, e ele disse: ‘Fogo! Saia!’. Acordei rapidamente o meu neto, dei-lhe um roupão, descemos as escadas, e é aqui que estamos agora”, disse Reke.

Várias testemunhas contaram que a velocidade a que o incêndio se propagava causou nervosismo em relação à condição dos seus prédios. Ubah Yusuf, uma mulher residente num local próximo do prédio incendiado, referiu que “o fogo começou por baixo [nos primeiros andares], as pessoas dos andares superiores não conseguiram sair. Agora estou preocupada com o meu prédio. Se acontecer um incêndio quem vai ajudar?”.

Janelas serviam para fugir

Segundo a CNN, duas testemunhas viram pessoas a saltar pelas janelas, para conseguirem sair do prédio. Samira Awil, uma das mulheres, viu vários corpos cobertos de folhas, nos locais onde caíram depois de saltar pelas janelas. A outra mulher, Tamara Eastmond, contou ainda que “literalmente vimos um homem a ser queimado até à morte no seu apartamento”.  

Abdullah Barraq Mohidin, outra testemunha, lamentou a falta de ajuda por parte das pessoas. “Não posso acreditar que ninguém" foi ajudar os moradores da torre residencial. Mohidin contou que “havia pessoas a tentar partir as janelas... Uma mulher e uma criança esperaram três horas para que as pessoas as ajudassem. Três horas a gritar por ajuda”.

Outros testemunhos dão ainda conta que um bebé foi salvo depois de ser atirado pela janela.

Alguns heróis salvaram amigos e família

Ayyub Asif mora a alguns quilómetros de distância da Grenfell Tower. Assim que viu as chamas correu para o local, onde tinha familiares no 18º andar. Este homem contou à CNN que, quando chegou ao prédio, a polícia não o queria deixar entrar, mas depois conseguiu. “Nós trouxemos-los [aos familiares] para fora. Depois de estarem fora do prédio, os familiares de Asif foram levados para o hospital pelos paramédicos presentes no local. “Tu não consegues fugir de um incêndio no 18º andar, mas graças a Deus, eles escaparam”, referiu Asif desabafando que ter o “primo nas mãos e a não respirar bem, é uma coisa louca”. 

No prédio onde este incêndio continua a lavrar residiam quatro famílias portuguesas, das quais duas crianças ficaram feridas.

Moradores já tinham alertado para perigo

De acordo com a associação de residentes da Torre Grenfell, este prédio tinha “os padrões de segurança contra incêndio muitos fracos”.

A associação advertiu durante anos para o risco de incêndio, que agora veio a confirmar-se. “Toda a gente fez ouvidos moucos dos nossos avisos e nós prevíamos que uma catástrofe como esta fosse inevitável e uma questão de tempo”.