O sucesso do «Podemos», um partido com apenas oito meses que já lidera as sondagens em Espanha, pode explicar-se por uma «crise do regime» que gerou uma «deceção com a elite política». O que também se ouve em Portugal. «A maior parte dos políticos foi absolutamente incapaz de resolver os problemas das pessoas», resume Pablo Iglesias, numa entrevista à TVI24 e ao «Público».
 
Daí um discurso, muitas vezes, antipolíticos. Mas não populista, no entender do recém-eleito secretário-geral.
 

«O populismo alude normalmente ao que mente, ao que engana, que diz às pessoas o que querem ouvir, que em campanha se mascara para parecer algo que não é. Em Espanha, vimos um candidato do PP, que é um milionário, vestido de agricultor e num trator, para parecer um homem comum. O secretário-geral do PSOE aparece de camisa, mangas arregaçadas, e põem-no a andar de transportes públicos, para parecer uma pessoa normal. Os que fazem isto, não nos chamem de populistas. Sempre fomos muito sérios na hora de apresentar propostas concretas».

 


Pablo prefere acreditar que o seu discurso assenta na «dignidade».

«Habituámo-nos a que a política seja um espaço de mentirosos e hipócritas e que não haja ninguém a fazer política pela dignidade das pessoas. Mas este não é um conceito vago, concretiza-se em políticas concretas».

 
Vamos a elas. A reestruturação da dívida, para Pablo, é «uma medida de emergência social», não só em Espanha, «mas também em Portugal, na Grécia e na Irlanda». Acabar com os paraísos fiscais das grandes empresas, «defendendo uma política patriótica e digna, que diga não, têm de pagar impostos aqui». Uma « reforma fiscal para reduzir a fraude e aumentar a pressão sobre as grandes fortunas».

Definir um rendimento mínimo que tenha em consideração a «situação de cada pessoa», isto é, por escalas. Porque «é diferente uma mulher de 45 anos com três filhos de um jovem» e «é diferente viver em Lisboa do que numa povoação mais pequena».

«Imaginemos um rendimento de 600 euros por mês. Dizem que, se as pessoas receberem isso, não vão trabalhar. A quem diz isso, proponho que, durante um ano, ganhem 600 euros por mês sem trabalhar».

 
Já sobre um salário máximo, admite que seja fixado em 20 vezes o mínimo.
 

«Os países do Norte, os países mais eficazes, mais prósperos, são os países menos desiguais. Cada vez somos países mais desiguais, onde os ricos são mais ricos e os pobres mais pobres. Devemos dizer aos ricos para ganharem um pouco menos, apertarem um pouco o cinto. Os únicos que se esforçam, nas situações difíceis, são os que estão em baixo. É melhor que sejam os de cima, por patriotismo nacional, a esforçar-se um bocado».

 
Questionado sobre o referendo suíço, que desaprovou este teto máximo, Pablo Iglesias preferiu saudar a votação e salientar que, por exemplo, em Portugal, os eleitores podiam aprovar: «Na Suíça deixaram as pessoas votar. Os suíços disseram que não, mas quem sabe o que diriam os portugueses? Tenho as minhas dúvidas».
 
O «Podemos» também deseja criar uma lei que proíba todos os Presidentes da República e ministros de passarem depois para os conselhos de administração de «empresas estratégicas».
 

«Não estou a dizer que não podem trabalhar. Podem, como qualquer pessoa. Com um horário de 8 horas, a receber um salário. Agora, vão para uma empresa de energia, vão a uma reunião por mês e recebem valores escandalosos ao ano. Toda a gente sabe que os contratam não por serem grandes estrategas das finanças, mas porque têm uma agenda de telefones e contactos, que têm graças ao cargo público que exerceram».

 
Pablo admite mesmo que essa proibição fosse vitalícia.
 

«Seria duro nisto, pelo que já vi. Dois ex-presidentes do governo espanhol, José Maria Aznar e Felipe Gonzalez, estão em conselhos de administração de empresas energéticas. No ano passado, centenas de milhares espanhóis tiveram a luz cortada porque não a podiam pagar. É uma humilhação aos cidadãos».

 


Sobre as críticas às suas «propostas irrealistas», o líder do «Podemos» responde com uma «campanha de medo», que assenta em fazer transparecer que estas medidas são «inviáveis». «Esse é um discurso que demonstra que estão na última trincheira, esse é o último argumento que estão a utilizar para se defenderem, por isso estamos a trabalhar para concretizar estas propostas», prometeu, garantindo que o seu partido vai a eleições «por uma maioria absoluta».
 
Pablo Iglesias promete também demitir-se se foi eleito primeiro-ministro e não cumprir o seu programa e pretende atingir uma sociedade com «igualdade de oportunidades».
 

«A geração mais qualificada está a ir para fora. A sociedade fez um esforço enorme para eles estudarem nas universidades e eles têm que ir. As melhores cabeças, os melhores jovens, têm que emigrar. Quem sobe na carreira? Os sem vergonha, os que estão perto do poder, os que têm amigos, não os melhores. Sobem os mais cobardes, como na política, e destrói-se o mérito».

 
Pormenorizando a situação espanhola, e caso chegasse mesmo a vencer as próximas legislativas, o secretário-geral do «Podemos» encararia a relação com o rei com «normalidade» e admitiria reunir-se com Filipe. No entanto, defenderia um referendo à monarquia.
 

«Explicaria, como democrata, que entendo que seria razoável que, se quer ser chefe de Estado, se apresentasse a eleições. Gostaria que os cidadãos do meu país pudessem tomar a decisão votando e, quem sabe, porque Filipe tem muito prestígio na sociedade, o elegeriam. Mas, numa democracia, o chefe de Estado tem de passar pelas urnas e não por questões hereditárias.

 
Admitindo que o «Podemos» vive um pouco de um «culto da personalidade» e que isso é «um risco», Pablo destacou que é «uma enorme responsabilidade», mas que representa «a vontade das pessoas», que o elegeram secretário-geral com grande maioria. Quanto ao seu estilo, não abdica do cabelo comprido, da camisa informal e das sapatilhas, mas já o mudou.
 

«Tenho uma imagem que dá que falar e não sei até que ponto isso é bom. Disseram-me: falam-se que vais de sapatilhas, fala-se da tua camisa, do teu cabelo. Tirar o piercing foi uma forma de não falarem disso e de se concentrarem no que digo. Às vezes, em política, há que dar mensagens. Se for a um funeral de um amigo de uma família muito religiosa, também me visto de preto para não ofender a família».

 
Sobre «categorias», Pablo Iglesias admite: «Sou de esquerda, claro». No entanto, acredita que a solução é outra: «Para pensar o nosso país, não é preciso pensar em esquerda e direita. Assim, ganha sempre a banca, ganham sempre os mesmos. O problema está entre os de cima e os de baixo».