A cadeia de televisão norte-americana «Fox News» decidiu divulgar, no seu website, o vídeo completo da execução do piloto jordano, Maaz al-Kassasbeh, pelo Estado Islâmico (EI), queimado vivo dentro de uma jaula no início de janeiro.

A decisão inédita por parte do canal norte-americano está a gerar controvérsia nos EUA, com outros órgãos de comunicação a considerarem a decisão editorial «errada», uma vez que além de se tratarem de imagens extremamente explícitas, pode auxiliar o grupo nos seus objetivos: incutir o medo e propagandear as suas ações.

Desde que o vídeo foi disponibilizado, esta terça-feira, especulava-se que a cadeia pudesse estar a tentar explorar uma forma de gerar tráfego e pudesse converter visitas em receitas com a publicidade, no entanto, os anúncios habituais foram desativados no vídeo em questão. Apesar de o vídeo já corresponder a 10% do tráfego do website, a «Fox News» já esclareceu que se tratou de uma decisão meramente editorial, por considerarem que cabe aos seus espectadores e leitores decidir se visualizam, ou não, as imagens chocantes.

«Depois de cuidada ponderação, decidimos que dar a opção aos leitores da “Fox News” de visualizar os atos bárbaros do Estado Islâmico era mais importante que as preocupações com a natureza [explícita] do vídeo. Os utilizadores do online podem escolher se veem ou não o conteúdo perturbador», lê-se num comunicado da empresa.


Mas por que está esta decisão a gerar tanta controvérsia? Este não é o primeiro vídeo que o Estado Islâmico publica na internet, e qualquer cidadão que esteja realmente interessado em vê-los pode muito bem «varrer» a web e mais cedo ou mais tarde conseguirá encontrá-los. Depois, se as televisões já mostraram as Torres Gémeas a cair, várias guerras, inúmeros cadáveres resultantes de catástrofes naturais ou conflitos, o que difere essa informação do vídeo cru do EI? E onde fica a liberdade da informação?

«É uma questão complicada», diz Felipe Duarte, professor universitário e porta-voz do Observatório de Segurança, Criminalidade Organizada e Terrorismo (OSCOT).

«É uma discussão muito complicada, porque lança-se um conflito entre a liberdade da informação e a concretização do objetivo dos autores do vídeo, que é a multiplicação do número de elementos do grupo. Porque o terrorismo sem propagação não é nada».

A questão está, portanto, na propaganda gerada para o EI. No entanto, durante a passada década divulgaram-se vários vídeos da Al-Qaeda onde Osama Bin Laden surgia com mensagens para os seus inimigos, e mais recentemente, aquando do atentado ao jornal satírico «Charlie Hebdo», várias televisões mostraram o vídeo de um polícia a ser abatido por um dos terroristas. Mais do que isso, se estamos a falar do facto de serem imagens chocantes, desde o nono ano de escolaridade que os jovens veem imagens da segunda guerra mundial e das atrocidades cometidas nos campos de concentração.

Se este fosse um vídeo da morte de Osama Bin Laden ou das alegadas torturas praticadas pelo exército dos EUA em Guantánamo, seria diferente? Felipe Duarte, especialista em terrorismo, explica a diferença.

«Este vídeo foca os três objetivos fundamentais do EI: multiplicação dos jihadistas, traçar um sentimento de impunidade e de crueldade. [Ao mostrar o vídeo] propaga-se o medo e o [aviso] dos militantes: “Quem se mete com o Estado Islâmico pode sofrer o mesmo destino”. [É diferente de um vídeo de tortura em Guantánamo] porque uma coisa é uma intenção de denúncia, de divulgar o que acontece para repor direitos humanos perdidos, outra é a propaganda. Gravar a crueldade, forjar a violência com o único objetivo de multiplicar [as fileiras da organização]».


É diferente do que aconteceu com o vídeo do polícia abatido após o ataque ao «Charlie Hebdo», porque aí a filmagem foi “acidental”, e a sua divulgação quis mostrar o que os terroristas eram capazes. O vídeo do EI, com um nível de produção quase “hollywoodiana”, é feito com outro propósito, diz.

«Falamos de três coisas diferentes. Uma coisa é a denúncia [caso de Guantánamo], outra é a de mostrar a crueldade que um tipo de pessoa ou organização é capaz [ataque ao Charlie Hebdo], outra é quando existe produção. Se há produção, há uma estratégia de divulgação que vai ter efeitos multiplicadores de violência», continuou.


Os esforços colocados em cada vídeo são evidentes. Os planos, a fotografia, o suspense e até o uso do inglês como língua “oficial” não são meros acasos. Estamos na era do digital e os militantes do EI sabem-no.

Apesar de tudo, a informação tem de ser transmitida e os espectadores/leitores têm o direito de saber o que se passa no «novo califado». Mas dizer que o Estado Islâmico queimou vivo um refém, é diferente de mostrar o Estado Islâmico a queimar um refém, como diz, por outras palavras, Felipe Duarte.

«É preciso ponderar com sensatez. Sem pôr em causa a liberdade de expressão, é preciso um equilíbrio. Dar as notícias sim, mas não é necessário o vídeo, porque está-se a cumprir o objetivo dos terroristas. [Porque este vídeo] mostra que há [ali] um fetiche pela vertigem da violência».


Sites como o «Youtube» e o «Facebook» apagaram o vídeo poucas horas após a sua publicação, e podem banir quem se atrever a publicá-los novamente. Os autores não podem utilizar estes fortes meios de comunicação para divulgar a sua propaganda, mas como aponta o «The Guardian», muitos dos apoiantes do Estado Islâmico estão a utilizar o link da «Fox News» para divulgação, porque ali não pode ser apagado.