“Vocês são um exemplo da história, que está em mudança... O vosso encargo é, sem dúvida, cancelar os resgates da austeridade e da destruição”, afirmou Alexis Tsipras perante milhões de gregos, na noite da sua eleição, prometendo agitar as águas da política europeia. Contudo, ninguém podia prever o desenrolar da última semana.

A Grécia está imersa num caos político e económico desde dia 27 de junho, quando Tsipras negou as condições dos credores, três dias antes do prazo estipulado para pagar a dívida. Na segunda-feira, os bancos encerraram para que o dinheiro não saísse do país, estabelecendo um limite de levantamento até aos 60 euros diários e convocando a decisão da população num referendo, para aceitar ou rejeitar as imposições dos credores, a realizar este domingo.
 
Todos os olhos têm estado postos no primeiro-ministro grego para saber o que vai fazer a seguir. O que tem sido difícil, dada a imprevisibilidade das suas últimas decisões Num estado quase bipolar, durante os últimos dias já enviou uma carta aos credores, propondo novos acordos, para, apenas horas depois, afirmar que não passam de "chantagistas".
 
As estratégias de Tsipras estão a dividir o país e a opinião pública internacional. Há quem as veja como um ato de loucura desesperada mas também quem afirme que se trata de uma brilhante estratégia política.


 
Depois de ter negociado unilateralmente o resgate com os credores, o referendo surge como a última cartada, depois de perceber que não iam ceder às suas imposições. Assim sendo, Tsipras está preso entre as suas promessas para acabar com a austeridade e as exigências das entidades europeias. O primeiro-ministro apelou ao “não”, porque pretende que a nação fale por ele. Mas o “sim” pode não ser uma má opção. 
 
Segundo analisa o Politico, esta medida comprova a genialidade do líder grego. Se o resultado for “não”, a sua posição será reforçada e terá um mandato novo, o que é difícil ser ignorado pelos credores. O voto serviria também para apaziguar a corrente anti-Europa do partido, reprimindo lutas internas.
 
Com o “sim”, Tsipras pode voltar a negociar com os credores, aceitando as suas condições e salvando a sua honra porque cumpre a vontade da população, algo que mesmo a fação mais radical do Syriza teria de respeitar.
 
Mas, segundo o Financial Times, esta pode também ser uma faca de dois gumes. O referendo pode ter sido um ato impulsivo que venha a comprometer o Syriza e a posição de Tsipras. O “sim” pode significar o descrédito do líder e a sua demissão, uma vez que terá de contrariar tudo aquilo que afirmou nos últimos meses. O “não” pode fazer com que Tsipras leve novas propostas aos credores, mas pode fazer também com que eles não queiram mais negociações.
 
“Ele é charmoso, bem-parecido e tem o poder de agarrar com mensagens poderosas. Mas não sabe o que está a fazer”, afirmou um membro do parlamento grego, segundo o Financial Times. “Ele não tem ideia nem experiência para ter o que pretende. Não percebe o que é a UE e não gosta. Mas isso funciona em sua vantagem: ele prospera no caos construtivo porque é tudo o que sempre conheceu”.
 

 
A irreverência do primeiro-ministro já não é novidade.  Alexis Tsipras sempre teve tendência a desafiar a autoridade. De acordo com a BBC, aos 17 anos, como membro da Juventude Comunista grega, Tsipras “liderou a ocupação do liceu onde estudava, levando os estudantes a viver, comer e dormir nas salas de aula e guardando as portas da escola durante vários meses”.
 
“Ele pareceu-me inteligente, calmo, apaixonado, mas também muito consciente – ele podia representar o equilíbrio de milhares de jovens que não tinham muita consciência sobre o que é que se insurgiam”, relembrou Matthew Tsimitakis, também um jovem ativista na altura, que teve oportunidade de conhecer o primeiro-ministro grego nesta fase tumultuosa da sua vida.​ Na altura muitos adolescentes faziam parte de partidos políticos, mas Tsipras destacava-se dos demais. “Ele estava muito bem informado sobre o sistema de educação... era ele quem negociava com o ministro e o único que conseguia lidar com os media”.
 
Ao carisma do jovem ativista juntava-se a vontade de quebrar a convenção. Segundo Matthew Tsimitakis, alguns anos antes de Tsipras se tornar conhecido do grande público, o atual primeiro-ministro apareceu numa festa presidencial de comemoração do fim da junta grega com um fato simples, sem gravata (algo que se converteu na sua imagem de marca) e acompanhado de uma jovem imigrante africana, o que chocou grande parte da Grécia conservadora. Esta foi uma afirmação, como tantas outras que faria ao longo da sua vida política.
 
“Tsipras tornou-se o símbolo de uma nova geração que estava a tentar entrar na cena política, ocupada pelos mais velhos”.
 
Depois de obter 17% dos votos nas eleições para a câmara de Atenas, Tsipras foi catapultado para o palco político nacional, tornando-se o chefe do partido de extrema esquerda grego, Syriza. Mesmo depois de se tornar primeiro-ministro, não esqueceu as origens políticas nem deixou para trás a rebeldia.
 

 
O mais jovem primeiro-ministro grego em 150 anos já fez história quando, depois de ser eleito, se tornou o primeiro a negar fazer um juramento sobre a Bíblia e recusar a benção do Arcebispo grego. O seu primeiro ato político foi depositar flores num memorial para os soldados mortos pelo exército alemão, durante a Segunda Guerra Mundial e, desde o início do seu mandato, que se tem insurgido contra as políticas de austeridade decretadas pelo FMI e pela Comissão Europeia, um plano de resistência delineado mesmo antes de chegar ao poder.
 
“Ele disse-me: ‘se chegar a primeiro-ministro, terei mais ou menos 40 anos e vou lutar apenas pela igualdade e maior distribuição de riqueza”, afirmou executivo grego, em entrevista ao Financial Times.
 
A ideologia que Tsipras segue fez com que chegasse ao poder, mas pode ser também a responsável pela sua queda. Toda a sua campanha parece ter sido impulsiva,irreverente e desestabilizadora, o que tem contribuído para o magnetismo do líder. Mas quando as políticas que defende são tão díspares dos interesses dos credores, há o risco de disputa se tornar uma luta partidária e não pelo bem dos cidadãos.
 
“Pessoalmente acho que ele é maluco e incompetente”, afirmou um economista citado pelo Politico. “Mas o brilhantismo pode ter muitas faces também: ele pode ser brilhante para o bem do seu partido, mas não para os gregos. Nos últimos seis meses de governo, penso que ele está a pôr as políticas do partido e a sua reputação à frente da boa governação e das pessoas”.
 
Tsipras parece reencenar lutas antigas, agora a uma escala infinitamente maior. O primeiro-ministro barricou a Grécia, isolando-a do resto do mundo, enquanto o país pondera se quer aceitar as condições do FMI, mas, para além dos resultados, o mundo vai parar também este domingo, para observar os próximos movimentos do primeiro-ministro grego.