As autoridades da Arábia Saudita vão decapitar mais de 50 homens condenados por terrorismo, entre os quais estão três jovens que tinham menos de 18 anos quando foram presos. Contudo, muitos acreditam que a pena de morte não foi aplicada por causa dos crimes de que são acusados, mas devido a preconceitos religiosos e lutas pelo poder.

Depois de uma declaração do Ministro do Interior, no jornal local Okaz, as famílias dos condenados acreditam que as autoridades vão matar os 52 suspeitos de terrorismo, que estão em diferentes cidades do reino, esta sexta-feira. As queixas chegaram às organizações de direitos humanos, que se espera que tomem ações para evitar o desfecho.

 De acordo com o The Independent, no ano passado contaram-se 90 execuções no reino saudita. Só este ano já serão pelo menos 151. As execuções agora iminentes serão as primeiras por alegações de terrorismo.

Sete dos condenados são xiitas, uma minoria religiosa no país e que tem protestado contra a discriminação por parte do governo muçulmano sunita.

A população acredita que um dos homens que vai ser morto nesta sexta-feira é Sheik Nimr al Nimr, um clérigo xiita, que foi preso em 2012, durante um tiroteio. O sobrinho, Ali al Nimr, foi detido quando tinha apenas 17 anos e pode também estar entre os condenados.
 

“Ali é um rapaz inteligente, gosta de jogar futebol, é fotógrafo. Ele não tinha orientação política, estava apenas a apelar pelos seus direitos. Pelos direitos do xiismo”, afirmou o irmão, Baqer al Nimr, acrescentando que, quando o foi visitar à prisão, viu que tinha “o nariz partido”.


O rapaz contou-lhe que ali “esmurravam toda a gente”.

A família de Sheik Nimr al Nimr não é a única a alegar que a polícia usa violência excessiva para com os prisioneiros. As mães de cinco dos xiitas condenados publicaram uma carta, na quarta-feira, garantindo que os filhos tinham sido submetidos a tortura.
 

“Afirmamos que os nossos filhos não mataram nem feriram ninguém. As sentenças foram promulgadas devido a confissões extraídas através de tortura, julgamentos que não permitiram defesa e juízes imparciais”, pode ler-se no documento.


Apesar das autoridades da Arábia Saudita terem negado as acusações, um investigador da Amnistia Internacional, Sevag Kechichian, disse que “as negações não são suficientes quando há provas claras que apontam para o contrário. Estas condenações não devem acontecer. A Amnistia Internacional é contra a pena de morte em qualquer circunstância”.

A ONU e outras entidades europeias apelaram também para o adiamento da execução de Ali al Nimr.

Mas há ainda outro fator que pode contribuir para que os suspeitos sejam mesmo executados esta semana: as lutas de poder dentro da família real.

O Ministro da Defesa, Mohammad bin Salman, filho do rei Salman, tem recebido cada vez mais poder e está a rivalizar com o vice primeiro-ministro, Muhammad bin Nayef, sobrinho do governante do país.
 

“Mohammad bin Salman tem-se apoderado de tudo. Mohammad bin Nayef quer afirmar-se. Quer ser visto como um político forte, ao matar 52 pessoas de uma só vez”, disse Saad al Faqih, um investigador, que vive em Londres, ao The Independent.


O jornal britânico garante ainda que o artigo que saiu no jornal local é verdadeiro e que as execuções vão mesmo acontecer, uma vez que “não seria autorizado a publicar sem a permissão direta de Mohammad bin Nayef”.

Mesmo que tenham sido acusados de pertencer ao Estado Islâmico e à Al-Qaeda, a população conhece a orientação religiosa dos condenados e Saad al Faqih acredita que as decapitações podem levar a uma revolta.
 

“O público xiita não vai ser enganado e se as decapitações acontecerem vau haver uma revolta xiita”.