Cantam. Dançam. Riem. Abraçam-se. Mas a festa pinta-se a preto e branco. Nem podia ser diferente. Na altura, a tecnologia da reportagem televisiva ainda não era technicolor. 

Assim, por todas as razões e mais esta, ficou tudo preto no branco.

Daquele histórico momento, daquela tarde de 25 de junho de 1975, em Maputo, defunta Lourenço Marques, as camaras registaram para a posteridade o arrear da bandeira da República Portuguesa, seguido do hastear da bandeira da República de Moçambique. E nós, quarenta anos depois, mergulhamos nos vermelhos, verdes, amarelos, que os dois tecidos ostentam e nas muitas e variadas cores que as palavras ali proferidas contêm.

“O Comité Central da Frelimo proclama solenemente a independência total e completa de Moçambique”, declarou Samora Machel, primeiro presidente da República de Moçambique.   


Passaram-se, então, quatro décadas de independência de Portugal, conquistada em parte pela força das armas comandadas por Samora Machel, um revolucionário marxista-leninista. 

O conflito armado independência moçambicana durou dez anos, tendo terminado em setembro de 1974 através da assinatura do acordo de Lusaka, na Zâmbia.


No entanto, a guerra seria uma marca, mais que isso, seria uma ferida aberta e bem funda na construção deste país africano que em 1976 mergulhou numa violentíssima e sangrente contenda civil que matou um milhão de pessoas e provocou três milhões de refugiados. Guerrearam-se a Frelimo, apoiada pela União Soviética e a Renamo, com o apoio da Rodésia e África do Sul.

A paz chegou em 1992,  mediante num tratado assinado em Roma. 

Nas primeiras eleições realizadas na antiga colónia protuguesa, a Frelimo conquistou com Joaquim Chissano a maioria. Uma situação que se repete, desde então, com a Renamo a aceitar o jogo democrático na oposição, num país feito de contradições e extremos.


Depois de vários anos de pobreza extrema, Moçambique começou a recuperar algum fôlego e tornou-se, mesmo, um dos países com mais rápido crescimento económico em todo o mundo. Uma conjuntura aproveitada por 23 mil portugueses, como Marta Mocito.

“Em Lisboa ganhava 700 euros, aqui ganho 3000”, partilha com a reportagem da TVI esta gestora de recursos humanos, na casa dos 30 anos, chegada a África em 2014. 


No entanto, esta é a oportunidade apenas para alguns, porque, apesar da OCDE prever um crescimento de 7,5 por cento da economia moçambicana e do jornal Financial Times sublinhar que Moçambique ocupa o quinto lugar de uma lista mundial de investimento direto estrangeiro de oito mil milhões de euros, a verdade é que 90 por cento dos 25 milhões de moçambicanos vive com menos de um euro e meio por dia. Sendo que 50 por cento da população vive abaixo da linha de pobreza. 

Uma conta de somar que dá sempre como resultado um menos. Conclui a ONU que coloca Moçambique entre os 10 países menos desenvolvidos do mundo.

Aqui chegados, pormos a realidade preto no branco é percebermos que na realidade não haverá muitas mais cores, que uma imensa gradação de cinzentos.