No dia em que se ficou a saber que o Reino Unido decidiu sair da União Europeia, Paulo Portas defendeu que esta foi a pior altura para conduzir um referendo. No “Jornal das 8” da TVI, o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros e ex-vice-primeiro-ministro deixou, esta sexta-feira, o aviso de que a gestão do futuro próximo da Europa tem de ser feita de forma fria e prudente.

“Os ingleses decidiram chegar o fósforo ao fogo. O fósforo era o referendo, o fogo é a situação em que se encontra a Europa”, começou por dizer Paulo Portas.

O também ex-líder do CDS-PP referia-se a um referendo que acontece na pior altura, ao terrorismo que ameaça a Europa e à crise de refugiados, ao mesmo tempo que a economia da União Europeia se mostra débil e a sua liderança política enfraquecida.

“Este era o pior momento para pedir um ‘sim’ à Europa e o povo que mais dificilmente daria esse ‘sim’ eram os britânicos, como é evidente, porque são os mais eurocéticos e porque ninguém vai convencer os ingleses de que eles não são capazes de andar sozinhos”, afirmou.

Paulo Portas explicou que o Reino Unido tem a língua franca do mundo, tem a Commonwealth de que a Rainha de Inglaterra é chefe de Estado numa série de países com quem têm afinidades eletivas, tem uma moeda que está a desvalorizar, mas que é uma moeda forte e respeitada – a libra - e é, por isso, muito má ideia pessoas de fora irem dizer aos ingleses como é que eles devem votar, o que seria “contraproducente”.

O ex-ministro dos Negócios Estrangeiros considerou, por isso, que a União Europeia está ameaçada. Para Paulo Portas “é o princípio do princípio do fim” que um primeiro esboço de reação da União Europeia ao brexit seja Angela Merkel a convocar para uma minicimeira em Berlim, na próxima segunda-feira, o presidente francês, o primeiro-ministro italiano e o presidente do Conselho Europeu. A primeira reação da Europa ao brexit “não foi muito avisada”, defendeu o ex-político.

“É evidente que se se quer protagonizar uma reação, uma resposta ou uma visão europeia não se começam a reunir grupinhos, nem se começam a fazer cimeiras trilaterais ou quadrilaterais, é o conjunto. Imagine como é que povos excluídos destas reuniões sentirão este tipo de notícia. Não é a melhor maneira. A Europa ou se faz com todos ou, se se faz por diretório, acabará por quebrar em muitos lados”, vaticinou.

Paulo Portas realçou que é necessária cautela. Para além de haver um processo de desagregação possível da UE, há o risco de desagregação do próprio Reino Unido e esse é muito perigoso por causa do “efeito réplica”. Basta olhar para o que agora pede a Escócia.

“A forma como a Europa vai reagir a esta questão da Escócia é determinante porque, no dia seguinte, os catalães acham que há uma forma de sair de Espanha e ficar na Europa. No dia seguinte, os lombardos acham que há uma forma de deixarem de pagar o sul de Itália e ficarem na Europa. No dia seguinte, a Bélgica que é um casamento incomunicável ou incomunicado entre os valões e os flamengos, tem um problema”, alertou.

Com a União Europeia com um processo difícil em mãos e acima de tudo cheia de incertezas, é difícil prever o que vai acontecer a partir de agora.

“Nós entramos num Objeto Voador Não Identificado, digamos assim. Nunca foi experimentado. Só isso recomenda alguma prudência. Há uma figura do Direito de Família que é: divórcio vai haver, agora o divórcio ou é ‘amigável’ ou é ‘litigioso’”, afirmou.

O ex-vice-primeiro-ministro defendeu que o caminho tem de ser de reconciliação com o Reino Unido porque em causa estão demasiados pontos comuns e também porque há o interesse europeu.

“Há muita gente que não tem memória do que era a Europa sem União Europeia. A Europa sem a União Europeia, para além de ser o berço da Civilização, chama-se 'guerra'. A História do século XX europeu é uma tragédia: são duas guerras mundiais. Se voltamos apenas à prevalência dos interesses nacionais em conflito com outros interesses nacionais regressamos ao pior da nossa memória. Eu seria, até por isso, prudente, frio, na gestão desta crise”, rematou.