Dois dos mais destacados membros do jornal  Charlie Hebdo vieram a público falar sobre o “mal-estar profundo” que se vive na redação, desde o atentado terrorista de janeiro. Patrick Pelloux e Luz afirmaram que vão deixar de publicar do jornal satírico.

Depois do atentado perpetrado por jihadistas revoltados com uma caricatura de Maomé, o mundo comoveu-se e doou milhares de euros à revista. Mas agora que tudo parecia correr bem, duas das figuras mais relevantes do jornal francês vieram a público denunciar mudanças na redação desde o ataque, que nem o dinheiro angariado pode esconder.

O escritor Patrick Pelloux, de 52 anos, anunciou este fim-de-semana que iria abandonar a revista até ao final do ano, dias depois do cartoonista Luz, ter informado que iria deixar de colaborar com a revista a partir desta semana.

“Algo tem de chegar ao fim. Algo acabou. Somos sobreviventes mas não somos sobreviventes. Parte de nós acabou com o massacre”, disse Patrick em entrevista a uma rádio local.


Os dois cartoonistas lideraram a “revolta” contra a gestão da revista depois dos atentados, que apelidaram de “autoritária” e de “veneno dos milhões”. Numa carta aberta, o staff de Charlie Hebdo afirmou que os cerca de 30 milhões de euros que receberam em doações e no aumento do número de exemplares vendidos estava a corromper o estilo e a identidade da revista.

Mas estes não são dois casos isolados. Zineb El Rhazoui, outra dissidente de Charlie Hebdo, criticou também o ambiente que se vive na redação por estes dias.

“Estas duas saídas são um sinal de que as relações com a nova gestão não estão a correr bem. Patrick era uma das pessoas que estava em vista [para a gerência da revista] há meses”.


 A jornalista acrescentou que existiam disputas por causa de dinheiro, desde a entrada dos novos gestores.

O atentado de 7 de janeiro vitimou 11 pessoas, entre as quais jornalistas, cartoonistas, editores e um agente da polícia. Patrick foi um dos sobreviventes do massacre e um dos primeiros a socorrer os colegas.