O presidente do Parlamento Europeu afirmou, nesta segunda-feira, que a Europa é uma "bicicleta sem ar nos pneus" e receia que a união fique mais fraca devido às crises que atingem o continente europeu.

“Pela primeira vez na história da Europa, não é certo que a União Europeia (UE) saia destas crises mais forte. Pode acontecer que fiquemos ainda mais fracos”, disse Martin Schulz, em entrevista ao Diário de Notícias e à TSF, em que aborda as questões financeiras, a crise dos refugiados, o referendo sobre a permanência do Reino Unido na UE e a falta de unidade entre os Estados-membros.

Continuamos a ser uma bicicleta, mas sem ar nos pneus. Temos inúmeros problemas para resolver. Continuamos a pedalar, mas os nossos instrumentos não estão na melhor forma”, indicou o alemão Martin Schulz quando confrontado com a imagem de que a integração europeia é uma “bicicleta” que tem de continuar a andar para evitar cair.

Schulz explicou que aqueles que querem destruir a União Europeia estão a ganhar eleições e acusou a “maioria” que acredita na cooperação transnacional de se manter em silêncio contra uma minoria hostil muito “ruidosa”.

Venceremos se a maioria silenciosa puder ser novamente mobilizada pelos ideais [europeus]. O espírito desta comunidade - de que juntos somos mais fortes - está a perder-se cada vez mais. E esse é um dos problemas”, considerou, acrescentando que se verifica uma falta de unidade entre os vários Estados.

Para o presidente do Parlamento Europeu, a União Europeia atravessa um “género de policrise”, destacando que o euro é uma moeda forte, mas que o sistema monetário não é estável.

Somos a região mais rica do mundo, mas a distribuição da riqueza não é justa nem equitativa”, defendeu.

A “policrise”, segundo Schulz, inclui a crise dos refugiados, um problema que, no seu entender, pode ser facilmente gerido distribuindo um milhão de pessoas pelos 500 milhões dos 28 Estados-membros.

O que me irrita verdadeiramente é que alguns países que não estão a participar na redistribuição de refugiados e que contribuíram para criar esta crise, vêm depois criticar a União Europeia por não ser eficaz na gestão dos refugiados. Isto é mesmo cínico”, acusou.

Sobre a permanência, ou não, do Reino Unido na UE, Schulz lembrou que os britânicos “são pragmáticos” e que a maioria vai votar “para ficar” na Europa no referendo marcado para o dia 23 de junho.

Políticas contra paraísos fiscais

Martin Schulz mostrou-se também contra a austeridade, defendendo, nesta entrevista, políticas contra a fuga aos impostos e os paraísos fiscais.

Nunca se conseguiu sanar as contas públicas através de cortes. Também é preciso aumentar as receitas. Aqui, a União Europeia pode responder imediatamente com mais de mil biliões de euros por ano que estão nos paraísos fiscais, por fraudes e fuga ao fisco”, argumentou.

Para Schulz, aqueles que têm mais dinheiro e que “o podem pôr em paraísos fiscais”, devem contribuir para a gestão dos custos do bem-estar público.

Por outro lado, questionado sobre as posições da Comissão Europeia que este mês vai apresentar recomendações aos países que se encontram sob a “vertente corretiva” do Programa de Estabilidade e Crescimento, como Portugal, Schulz respondeu que a 'Comissão Juncker' já mostrou mais flexibilidade no passado.

Obviamente, podemos continuar a pedir cortes para a redução do défice. Mas, o que devemos ter em conta é se esses cortes não são contraproducentes. O que me parece é que a Comissão procurará um equilíbrio entre a disciplina orçamental, que é inevitável e obrigatória, baseada no tratado”, afirmou Schulz.

Mesmo assim, o presidente do Parlamento Europeu recordou que os governos precisam de margem de manobra para a estabilidade pública e para o investimento.

O alemão Martin Schulz acrescentou que a situação de zero por cento de juros que se verifica atualmente é uma vantagem concedida pelo Banco Central Europeu para o governos gerirem melhor a dívida soberana e o défice anual.

“A minha recomendação é para que usem tanto quanto possível essa vantagem”, sublinhou o presidente do Parlamento Europeu.