Mohamed Amimour, de 67 anos, é a imagem do desalento quando chega ao centro comercial de Bobigny para conversar com os jornalistas do Le Point. Pai de Samy Amimour, o terrorista que se fez explodir na sala de espetáculos Bataclan a 13 de novembro, Mohamed confessou à revista francesa que demorou a perceber que o filho “tinha participado neste massacre”.
 

“Não consigo acreditar que o meu filho tenha participado no massacre. (…) Nos últimos meses, ele tentou convencer-nos a voltar para a Síria e nós dissemos-lhe: deixa esse país de descrentes! Respondi-lhe que a França é o nosso país, onde estamos bem. Penso que o que o levou a atacar a França e a trazer a guerra, foi ser contra a própria família. Ele viveu sempre à margem dos irmãos e dos pais”.


Em dezembro do ano passado, Mohamed Amimour confessou ao Le Monde que, em junho desse ano, tinha ido à Síria tentar trazer o filho de volta à França, mas não conseguiu. O filho, que entretanto mudou o nome para Abu Hajia, só voltaria em outubro deste ano, sem avisar, e com um plano em mente: ser um dos protagonistas do massacre do Bataclan.

“Atordoado” pelas notícias de que o filho foi um dos intervenientes dos ataques, Mohamed diz saber que “todos pensam” que tem “responsabilidade” pelos atos do filho. “Mas têm de saber que fizemos de tudo para o convencer a abandonar a jihad”.

“As palavras não conseguem expressar a nossa solidariedade com todos os familiares das vítimas. (…) Eu disse-lhe para ele voltar para França e ele respondeu: eu não fiz nada e vou perder dez anos se voltar. Porque queres que eu volte?”


"Tentaram-nos incriminar pelos ataques"



Mohamed Amimour teve conhecimento dos ataques quando assistia ao jogo entre a França e a Alemanha, onde aconteceram três das explosões de 13 de novembro.

Em confissão, diz que inicialmente pensou que “se o filho ali estivesse”, teriam “ido assistir ao jogo juntos”. “Mas de repente, tudo mudou. Pensei no meu filho como um dos autores. Ouvi a declaração do presidente, especialmente a parte em que ele falou da resposta de segurança em França.”

E foi ao ouvir François Hollande, que Mohamed pensou que as autoridades tinham “direito” de o “investigar”.

“No domingo à noite, antes de dormir, hesitei em fechar a porta do apartamento. Pensei em deixá-la entreaberta. Adormeci com esta ideia. E às 6:00 a polícia chegou à nossa porta e bateu. Disse-lhes “eu abro a porta! Esperem! Um apontou-me a arma e depois começaram as buscas, sem rodeios”.”


Findas as buscas, o pai de Samy foi levado sob custódia policial, juntamente com a mulher e a filha mais nova, e descobriu que o filho tinha feito parte do ataque suicida que matou 129 pessoas.

“O chão desabou sob os meus pés, mas eu não podia chorar uma lágrima pelo meu filho. Até hoje. Foi-me mostrado uma fotografia de depois do ataque e o seu rosto não tinha sido danificado”.


Durante 36 horas, foram interrogados pelas autoridades que, segundo Mohamed Amimour, os tentaram “culpar” pelos atos do filho.

“Respondi-lhes: como é que o meu filho que estava em liberdade condicional - sem passaporte nem bilhete de identidade - foi capaz de deixar França e atravessar a Europa para alcançar a Turquia e a Síria? Descobri que depois de a justiça lhe ter retirado os documentos, ele fez uma declaração de perda/extravio e conseguiu reaver os documentos. Como podemos reaver os documentos que nos foram confiscados legalmente?”


Os atentados de 13 de novembro, em Paris, que fizeram 129 vítimas mortais, foram reivindicados pelo grupo extremista Estado Islâmico. 

Os ataques, perpetrados por pelo menos sete terroristas, que morreram, ocorreram em vários locais da cidade, entre eles uma sala de espetáculos (Bataclan) e o Stade de France, onde decorria um jogo de futebol entre as seleções de França e da Alemanha, com a presença do chefe de Estado francês, François Hollande.